Quando falamos de manejo sustentável das águas pluviais e priorizamos a gestão na fonte considera-se como ordem de prioridade o aproveitamento da água da chuva, a infiltração e quando não possível utilizar esses dois o amortecimento através de reservatório. No post de hoje o autor Vitor Tonzar Chaves, mestre em Engenharia Sanitária e Ambiental pela USP e um dos idealizadores da Sapiência Ambiental, vai falar um pouco sobre aproveitamento da água da chuva.

O paradigma tradicional do saneamento nos conduziu à institucionalização de sistemas centralizados compostos por rede coletora, interceptores, emissários e estações elevatórias, os quais têm como objetivo juntar as águas residuárias oriundas dos diferentes pontos de contribuição e transportá-las até as grandes estações de tratamento de esgoto.

No que diz respeito à drenagem urbana, este pensamento tradicional diz que as águas de chuva devem ser afastadas o mais rápido possível, utilizando-se as galerias pluviais e córregos canalizados.  Técnicas de reúso, de tratamento descentralizado de esgoto, de infraestruturas verdes para drenagem sustentável e de captação de água de chuva são pouco consideradas por este paradigma vigente, e, muitas vezes, deixadas de lado. Por essa razão, a construção de um outro paradigma para o saneamento depende também de transformações culturais e políticas que possam favorecer que este tipo de sistema seja disseminado e aplicado.

Felizmente, vem crescendo atualmente um movimento tanto entre a comunidade técnico-acadêmica (engenheiros, arquitetos, professores, tecnólogos), quanto entre a população em geral, que vem pautado a importância de reconstruir essa nossa forma de se relacionar com as águas e de pensar o saneamento. O movimento “Cisterna Já” é um exemplo disso. Este movimento é formado por pessoas ligadas à permacultura, e pretende promover a capacitação para a instalação de sistemas de captação e reaproveitamento da água da chuva, realizando mutirões para ensinar a construção das cisternas.

Instalar um sistema de aproveitamento de água da chuva em sua casa é algo simples e que já contribui para diminuir a demanda da água fornecida pelo sistema de abastecimento público que precisa viajar por quilômetros e distância e passar por um processo de tratamento bastante custoso. Estima-se que os gastos com fins não potáveis como com a descarga sanitária, faxina e irrigação de plantas, representa aproximadamente 50% dos gastos com água na cidade. Por isso, está mais do que na hora de pararmos de usar água potável para mandar nosso cocô para longe! Além disto, as plantas também preferem receber a água de chuva que não tem cloro! Precisamos usar a água de maneira mais inteligente e os sistemas de aproveitamento da água da chuva podem ajudar muito nisso.

O que preciso saber para começar?

O primeiro passo para um bom projeto de aproveitamento de águas pluviais é pensar nos usos que a água captada terá. A água de chuva pode conter sujeiras presentes no telhado e no ar, como cocô de passarinho e fuligem. Recomenda-se que esta água seja utilizada para usos secundários como regar as plantar, descarga, limpar o chão e faxina em geral. Para dar outros usos, como lavar roupas, louças, entre outros, será necessário se projetar um sistema de tratamento avançado. Ressalta-se que a legislação brasileira não prevê o uso de água de chuva, mesmo que tratada, para fins potáveis.

Para melhorar a qualidade da água armazenada, o volume de descarte é fundamental. Este volume representa a primeira fração da chuva que carrega a maior quantidade de poluentes atmosféricos e presentes no telhado. A ABNT NBR 15227/07 recomenda o descarte de 2 mm da precipitação inicial. Nos projetos de mini-cisternas urbanas e armazenamento de água de chuva para fins de rega e limpeza, observa-se que muitos profissionais têm usado o descarte de 1 mm da precipitação inicial.

Mas o que significa 1mm de chuva? Ou 2 mm de chuva?

Preste atenção nesta relação: 1 mm de chuva, em 1 m2 de telhado,gera 1 litro de água armazenada. Ou seja, se seu telhado tiver 20m2 de área você necessitará de um sistema de descarte de 20 a 40 litros, a depender do critério adotado (1 ou 2 mm).

Figura 1 – Exemplo de um sistema de descarte de primeira chuva. Fonte: Acervo Sapiência Ambiental

Esta relação também é importante para pensar o potencial de armazenamento de seu sistema: se tens um telhado de 20m2 e ocorre uma chuva de 20mm (que é uma chuva forte), terás 400 litros de água de chuva armazenada. Em formato de equação temos:

Volume armazenado = Precipitação x Área do Telhado


Figura 2 – Representação esquemática da relação entre área do telhado, volume de chuva e armazenado

Assim o volume ideal da sua cisterna irá depender de uma série de fatores como: usos desejados, regime de chuvas no ano, área do telhado, área disponível para instalação da cisterna, recursos financeiros disponíveis para o investimento. Garantir o armazenamento de água de chuva nos meses secos é muitas vezes difícil e pode requerer um grande volume de armazenamento. Quando o uso principal é regar plantas e lavagem de pisos, em geral o que acaba determinando o tamanho das bombonas é o volume das cisternas acessíveis. O uso de bombonas reaproveitadas da indústria alimentícia (bombonas de azeitona, cogumelos, etc.) é um dos materiais mais utilizados para as mini-cisternas. Estas bombonas possuem, normalmente, 80 L ou 238 L. Existem também reservatórios encontrados no mercado e que possuem um design mais trabalhado. Na figura 3 são apresentadas algumas alternativas possíveis.

Atenção: nunca utilize reservatórios que já foram utilizados para o armazenamento de produtos químicos, eles podem apresentar riscos à sua saúde! Outro cuidado importante é sempre garantir que sua cisterna esteja bem protegida em relação aos mosquitos. Uma cisterna mal protegida pode virar um foco de reprodução de dengue.

Figura 3 – Reservatório de 1050 litros TecnoTri (a) Cisternas de bombonas de azeitona reaproveitadas – 238 litros (b). Fonte: Acervo Sapiência Ambiental.

Sobre o autor:

Vitor Tonzar Chaves é Mestre em Engenharia Sanitária e Ambiental pela USP e é um dos idealizadores da Sapiência Ambiental. [MM1] Realiza projetos de tecnologias sustentáveis de tratamento de esgoto, aproveitamento de água de chuva, biodigestão, recuperação de áreas degradadas, compostagem e educação ambiental desde 2014.  Além de projetar tecnologias ecológicas, oferece workshops e cursos com o intuito de disseminar estes conhecimentos para a construção de um mundo mais sustentável e solidário.

A Sapiência Ambiental [MM2] é um escritório cooperativo de projetos socioambientais, baseado nos princípios da Permacultura, Engenharia Engajada e Sustentabilidade. É composta por engenheiros e educadores ambientais que tem como missão desenvolver tecnologias que promovam a autonomia das pessoas e impactos positivos no meio ambiente. Propomos estabelecer relações baseadas na solidariedade e cooperação para que o trabalho possa de fato ser um espaço de realização pessoal e gerar impactos positivos para a sociedade como um todo, e, com isso, contribuir para o desenvolvimento socioambiental sustentável.