Devido ao fato de que, na realidade atual das cidades, não é viável conseguir que todos os edifícios sejam “net zero” em razão de inúmeros fatores econômicos e culturais, se faz necessário utilizar uma outra métrica de Carbono em “Carbon Equivalence” (CO2e) para representar uma medida universal de rastreamento do impacto das emissões de gases de efeito estufa dos edifícios.

Um dos temas mais relevantes da atualidade é o processo de carbon neutralidade, ou descarbonização progressiva das economias e de todas as áreas produtivas visando mitigar a crise climática global. Neste cenário, a indústria da construção é uma parte fundamental para a tão esperada transição energética e para o futuro das edificações.

Contexto global

A indústria da construção é uma das principais áreas que contribui direta e indiretamente nas mudanças climáticas, tendo uma participação anual de 28% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) e de 11% como carbono incorporado, com projeções atuais indicando que esse será responsável por quase metade das emissões totais de novas construções até 2050.

O processo total do carbono no ciclo de vida das edificações considera desde a extração da matéria prima, transporte, instalação nos locais, operação e manutenção, até o fim da vida útil dos elementos construtivos e equipamentos. Por outro lado, a lenta velocidade de transformação do setor da construção (que tradicionalmente é resistente a mudanças de práticas, materiais e tipologias) somado ao fato de que a incorporação de tecnologia de ponta é em geral difícil, fazem o processo de descarbonização ainda mais desafiante para todos os agentes envolvidos.

Trazendo um pouco de História; desde a crise do petróleo em 1973 tanto na Arquitetura como na Engenharia, vêm sendo necessário dar respostas mais “ecológicas” e energeticamente eficientes para o ambiente construído, reduzindo inicialmente custos associados e os impactos meio ambientais que a construção acarreta.

O que inicialmente foi chamada de Arquitetura Bioclimática, posteriormente passou por uma série de adjetivos como Arquitetura Passiva, Ecológica, Sustentável, atualmente entende-se como Arquitetura de alto desempenho ambiental com os denominados “high performances buildings” onde encontramos os edifícios de consumo neto de energia zero ou “Zero Net Energy Buildings” (ZNEB). Dentro deste último grupo digamos “cutting-edge” (e como uma consequência natural ao avanço dos estândares e objetivos globais) aparece recentemente o conceito de edifícios carbono neutros ou “Net Zero Carbon Buildings”.

Segundo o World Green Building Council (WGBC), o carbono neto zero se produz quando a quantidade de emissões de dióxido de carbono liberada anualmente pela edificação é igual a zero ou negativa, e entende-se como edifício carbono zero àquele que é altamente eficiente em termos de energia sendo totalmente alimentado por fontes de energia renováveis no local e/ou fora do local (compensação off-site).

Devido ao fato de que, na realidade atual das cidades, não é viável conseguir que todos os edifícios sejam “net zero” em razão de inúmeros fatores econômicos e culturais, se faz necessário utilizar uma outra métrica de Carbono em “Carbon Equivalence” (CO2e) para representar uma medida universal de rastreamento do impacto das emissões de gases de efeito estufa dos edifícios.

O mais provável e esperável é que até 2050 veremos entrar com mais força este tipo de métricas nas normativas mundiais para a área de edificações, considerando vários outros parâmetros de avaliação e diretrizes para atingir a carbono neutralidade. Diante deste novo cenário e desafios, toda uma área ainda não explorada na construção sustentável está surgindo e é preciso aumentar tanto a velocidade da resposta de projetistas e proprietários, como a abrangência da capacitação para novos profissionais que deverão atender essas demandas crescentes e outras que ainda nem apareceram.

Por exemplo, 20 anos atrás pouco se falava de Sustentabilidade, mas hoje é um tema fundamental para qualquer escritório de arquitetura, engenharia, organização ou governo, e dentro desta realidade vem surgindo novos conceitos associados, tais como as práticas ESG, sigla em inglês para os aspectos ambiental, social e de governança.

De fato, dentro dos investimentos ESG aparece o Índice Carbono Eficiente (ICO2) que corresponde a transparência das empresas em relação às suas emissões de gases efeito estufa. É desta forma que os temas de eficiência energética e carbono neutralidade aparecem como pontos fundamentais para mitigar os efeitos globais da mudança/crise climática e ao mesmo tempo reduzir custos, despesas e aumentar o valor agregado das empresas, seus ativos e produtos associados.

Medidas práticas nas edificações

Sabendo bem da importância e relevância deste assunto e o efeito cascata que está tendo na economia mundial, aqui vamos apresentar uma seleção de algumas das medidas práticas que podem ser adotadas nas edificações, tanto novas como existentes, visando o aumento progressivo do desempenho energético-ambiental para atingir a carbono neutralidade na medida do possível. A seguir:

Super Isolamento Térmico & Proteções Solares

Um super isolamento térmico contínuo na envoltória (paredes, janelas, tetos, pisos) considera ir além das especificações tradicionais e melhorar consideravelmente a transmitância térmica (valor U) dos elementos construtivos. Unido a isso, uma correta instalação de proteções solares, como por exemplo, a utilização de brise-soleil em climas quentes contribui para reduzir drasticamente a carga térmica interna dos ambientes e, consequentemente, o requerimento de energia para suprir as demandas de conforto térmico, tanto no verão como no inverno.

Soluções de projetos passivas ou híbridas

Os edifícios com melhor desempenho ambiental possuem sistemas passivos de condicionamento ambiental e/ou soluções híbridas utilizando sistemas mecânicos, mas demandando menos energia operacional para funcionar. Desta forma, não se depende totalmente dos sistemas “ativos”, que consomem energia e produzem indiretamente emissões de gases de efeito estufa.

Sistemas otimizados de AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar-Condicionado)

Quando se faz necessário utilizar sistemas mecânicos para aquecimento e resfriamento dos ambientes, e não for possível somente depender de soluções passivas, deve-se procurar pelos equipamentos e sistemas mais eficientes disponíveis no mercado e, se possível, trocar os equipos antigos e ineficientes. Existem muitas iniciativas a nível mundial para trocar equipamentos numa grande escala, considerando que no mundo a demanda global por maior conforto térmico está aumentando progressivamente.

Utilização de Fontes de Energia Renováveis

Nunca foi tão fácil e barato instalar e utilizar fontes renováveis nas edificações, tanto para geração de energia limpa como para aquecimento de água, por exemplo. Especialmente na área residencial este tema vem crescendo constantemente e espera-se que continue assim no futuro. O tema dos Building Integrated Photovoltaics ou BIPV é uma tendência inevitável que tomará cada vez maior relevância na arquitetura e engenharia nos próximos anos.

Utilização de Sistemas Construtivos Pré-fabricados

A velocidade das transformações implica uma aceleração dos processos e sistemas construtivos, tendo que entregar mais e melhores obras no menor tempo possível para atender as demandas sociais e financeiras da sociedade. O tempo representa um fator importante nas pegadas de carbono associadas especialmente aos canteiros de obra e sistemas pré-fabricados atendem da melhor forma essas solicitações.

Escolha de Materiais com baixo carbono incorporado

No processo de extração, produção e instalação de materiais de construção, emissões de GEE são uma consequência da pegada de carbono na cadeia produtiva necessária para construir. Dos projetistas e construtores depende a escolha de materiais que apresentem o menor impacto ambiental possível, particularmente na etapa de projeto e obra. Muitos novos materiais estão sendo incorporados em projetos pela baixa pegada de carbono associado a eles.    

Conclusão

Atualmente temos todas as ferramentas e possibilidades para fazer efetiva a descarbonização dentro da realidade das cidades e muitos programas internacionais de incentivo para eficiência energética e energias renováveis estão em andamento. Agora corresponde à nós, como projetistas e agentes envolvidos, começar a trabalhar a partir dessa perspectiva que busca descarbonizar nosso ambiente construído.

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Arquiteto pela Universidad de Chile e Master of Design Science, Sustainable Design pela University of Sydney. Diretor da PHS Eficiência Energética. Na Austrália, trabalhou para Cox Architecture desenvolvendo projetos sustentáveis em países tropicais (Malásia, Índia, Vietnã e Cingapura) e elaborou o Manual ESD (Ecollogically Sustainable Development). No Chile, trabalhou para os maiores escritórios de arquitetura do pais, desenvolveu Bases Técnicas de Eficiência Energética para o Governo, foi professor da Universidade do Chile e colaborador da Revista CA (Colegio de Arquitectos). No Brasil, foi o primeiro instrutor certificado do software de simulação de Energia da Autodesk, e desde 2011 vem dando cursos e palestras sobre o energia e sustentabilidade para universidades como FAAP, Mackenzie, Unicid e outras instituições privadas. Foi presidente do Comitê de Energia e Atmosfera para o Referencial CASA/Condomínio do GBC Brasil e colaborador da Certificação Zero Energy. Trabalhou para empresas multinacionais implementando Programas de Eficiência Energética para edifícios existentes (Operação e Manutenção) melhorando o desempenho energético-ambiental dos sistemas prediais. Fundou em 2017 a PHS Eficiência Energética, empresa especializada em Eficiência Energética, Conforto Ambiental, Simulações computacionais e Edifícios Zero Net Energy. Atualmente é Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie com a matéria de Eficiência Energética para Edificações.