Estamos atravessando grandes desafios ambientais planetários e medidas de mitigação e adaptação estão sendo tomadas pela maioria dos países comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Dentro deste cenário, altamente desafiador, o melhor recurso que a humanidade tem para reduzir os efeitos da mudança climática é a Eficiência Energética (EE) nas diversas áreas de atuação: indústria, transporte, equipamentos e principalmente edificações. Podemos entender esse processo como uma série de atividades para reduzir ao máximo a utilização de fontes de energia não renováveis, visando o melhor gerenciamento e conservação da energia.

Dentro desse contexto, a indústria da construção representa aproximadamente 36% do consumo final da energia global, tanto para produzir materiais e insumos (energia incorporada) como na vida útil dos edifícios (energia operacional), e quase 40% do total de emissões diretas e indiretas de CO2. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), existe um cenário projetado chamado “Ponte 2030” com ações de curto prazo para atingir níveis de descarbonização (-2°c) onde a EE representaria 49% do potencial de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), os investimentos em renováveis 17%, o “upstream” de emissões de metano 15%, as reformas a subsídios de combustíveis fósseis 10% e a redução do carvão ineficiente 9%.

Nesta linha de ação, muitos países estão numa transição para uma economia verde ou de baixo carbono, com a introdução massiva de fontes renováveis e de programas de Eficiência Energética para Edificações. Políticas energéticas e regulações normativas estão sendo discutidas e implementadas para, por exemplo, obrigar a ter uma classificação energética para residências. Em países como França, Inglaterra, Portugal, Espanha, e recentemente no Chile já é possível saber a classificação energética, no momento de alugar ou comprar um imóvel.

Realidade Nacional

No Brasil, a matriz energética está baseada, fundamentalmente, na geração de energia elétrica a partir das hidroelétricas (61%), sendo uma fonte limpa e barata comparada com muitos outros países que produzem energia de fontes não renováveis e poluentes. Talvez seja essa abundância, na produção de energia, um dos motivos pelos quais a eficiência energética não vem tendo tanto impacto na formação e na prática de profissionais de engenharia e arquitetura, mesmo já existindo, há várias décadas na agenda nacional, programas como o PROCEL (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica). Sendo um tema tão importante e fundamental para o crescimento e riqueza do país, a situação atual ainda está longe de conseguir suprir a demanda por profissionais que possam atuar com conhecimento técnico e científico na área. Isso se torna um verdadeiro imperativo na prática profissional, não somente para a realidade nacional como para o mundo todo.

Nos últimos anos, tem-se constatado um uso mais racional da energia elétrica nas edificações para reduzir custos operacionais, existindo uma forte procura por soluções de eficiência energética entre proprietários, investidores e responsáveis pelas instalações prediais, visando efetuar melhorias técnicas e atingir as metas orçamentais das empresas.

Eficiência Energética & Construção

A partir da crise do petróleo (17 de Outubro de 1973), a Eficiência Energética virou um tema mundial, mas, durante muito tempo, não houve tanta repercussão pública. No entanto, nos últimos anos, a EE reaparece com força dentro do crescente mercado de sustentabilidade, nos denominados “edifícios verdes” e também nas certificações ambientais (seja como pré-requisito ou crédito).

Dentro desses sistemas, a EE possui a maior pontuação para obter os selos verdes, devido ao fato de que o consumo/custo de energia tem um grande impacto na vida útil dos edifícios e na emissão de GEE, derivado da demanda na matriz energética. Mas se paramos para pensar como a cadeia produtiva da construção funciona, verifica-se que o desempenho energético e ambiental raramente é projetado de uma forma integrada e estratégica dentro da prática profissional, tanto dos escritórios de arquitetura como de engenharia.

Nos últimos 60 anos, nossa dependência excessiva dos sistemas mecânicos de condicionamento ambiental, tanto térmico como de iluminação, provocou uma brecha entre as soluções técnicas integradas ao clima local e, consequentemente, ao desempenho energético. Também muitas das estratégias bioclimáticas de projeto, bem conhecidas e utilizadas no modernismo tropical brasileiro, foram esquecidas e trocadas por tipologias copiadas do Estilo Internacional com soluções padrão para qualquer lugar do planeta, sem uma adaptação climático-energética correta. Esse problema implica um consumo altíssimo de energia em milhares de prédios e, ainda que essa situação esteja mudando gradativamente pela introdução de regulações e normas, a velocidade das transformações na indústria não acompanha o que planeta precisa para deter o avanço do aquecimento global.

Por outro lado, se considerarmos que a maioria dos edifícios existentes continuarão em operação nas próximas décadas, surge um mercado gigantesco de oportunidades para a melhoria no desempenho energético dos sistemas prediais: elétrica, ar condicionado, hidráulica, automação, envoltória e equipamentos. Instituições internacionais tais como o World Green Building Council (WGBC) já anunciaram, há alguns anos, a importância da EE nas edificações existentes e a necessidade de uma atuação mais efetiva nesta área, dessa forma, muitos recursos financeiros internacionais estão sendo disponibilizados para implementar programas de eficiência energética nas edificações.

Benefícios e Aplicações

A boa notícia é que trabalhando estrategicamente com a Eficiência Energética teremos muitos benefícios ambientais e financeiros na cadeia produtiva, com um impacto positivo, em primeiro lugar, para os investidores, operadores e usuários dos edifícios. A IEA indica alguns benefícios que a EE representa em vários níveis:

Internacional

  • Redução nos preços da energia
  • Redução nas emissões de gases de efeito estufa

Nacional

  • Redução na demanda de energia e redução do preço local
  • Redução das despesas em saúde pública
  • Segurança Energética
  • Potencial de criação de empregos

Setorial

  • Aumento na revenda de imóveis
  • Melhores balanços financeiros para os fornecedores de energia
  • Novos empregos em instalação e produção de materiais eficientes

Individual

  • Contas de energia menores
  • Maiores recursos financeiros
  • Edifícios mais confortáveis termicamente
  • Melhora na saúde e bem-estar

Benefícios para proprietários e ocupantes

Para proprietários se produz uma maior valorização e qualidade do imóvel e para os ocupantes melhor saúde, segurança, conforto e acessibilidade.

  • Operação e Manutenção: melhor durabilidade dos edifícios e menor necessidade de manutenção
  • Segurança e Prevenção: maior iluminação, controles e redução de riscos operacionais
  • Valorização Imobiliária: aumento de renda, menor rotatividade de locatários, maior área útil
  • Conforto Ambiental: melhor conforto visual, térmico e acústico
  • Saúde: melhor saúde mental e física, devido a melhor qualidade do ar interno e conforto ambiental

Benefícios para empresas e profissionais

  • Construtoras e Incorporadoras: aplicar EE cria melhores produtos imobiliários e diferenciação positiva da concorrência, oferece prédios de alta qualidade técnica e ambiental, o que além de economia de custos, também configura maior satisfação de conforto para o usuário final.
  • Arquitetos e Engenheiros: é uma forma prática para melhorar os projetos com soluções técnicas baseadas em fundamentos científicos sólidos, aumentando a qualidade ambiental dos espaços e calculando com maior precisão os sistemas técnicos. A Eficiência Energética caminha junto com a Arquitetura Sustentável/Bioclimática.
  • Operadores e Gerentes de Facilities Management: a EE diminui as despesas e aumenta os orçamentos anuais disponíveis. Isso implica um maior grau de satisfação dos ocupantes e dos clientes, que passam a gastar menos nas contas mensais.

Para obter o máximo dos benefícios da EE, o ideal é efetuar as avaliações desde o princípio dos projetos, quando é mais fácil testar modificações sem maiores custos. Ao valorizar os projetos e aplicar inteligência estratégica no início, se reduz o consumo de energia na vida útil dos empreendimentos e aumentam os recursos financeiros disponíveis para as empresas.

Perspectivas Futuras e desafios

No Acordo de Paris em 2015, o Brasil assumiu a meta de alcançar 10% de ganhos em eficiência energética, no setor elétrico, até 2030. Para poder cumprir com esse compromisso, o mercado laboral deve aumentar 5 vezes a oferta de empregos associados diretamente com eficiência energética, segundo o estudo “Potencial de Empregos Gerados na Área de Eficiência Energética no Brasil de 2018 até 2030” efetuado pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

A partir desta realidade várias perguntas surgem, entre elas:

  • Estamos prontos para esta mudança no mercado da construção civil?
  • As instituições acadêmicas estão formando a seus alunos para fazer projetos de alto desempenho energético e ambiental?
  • As energias renováveis estão efetivamente atuando em sinergia com programas de EE?

Tudo indica que o presente e futuro da indústria da construção estão estreitamente ligados a eficiência energética nas diversas áreas de atuação, levantando uma pergunta final:

Sua empresa está se preparando para esta transformação?       

Artigo anteriorSaiba como utilizar e preparar a fundação radier
Próximo artigoProjeto de pavimentos permeáveis
Arquiteto pela Universidad de Chile e Master of Design Science, Sustainable Design pela University of Sydney. Diretor da PHS Eficiência Energética. Na Austrália, trabalhou para Cox Architecture desenvolvendo projetos sustentáveis em países tropicais (Malásia, Índia, Vietnã e Cingapura) e elaborou o Manual ESD (Ecollogically Sustainable Development). No Chile, trabalhou para os maiores escritórios de arquitetura do pais, desenvolveu Bases Técnicas de Eficiência Energética para o Governo, foi professor da Universidade do Chile e colaborador da Revista CA (Colegio de Arquitectos). No Brasil, foi o primeiro instrutor certificado do software de simulação de Energia da Autodesk, e desde 2011 vem dando cursos e palestras sobre o energia e sustentabilidade para universidades como FAAP, Mackenzie, Unicid e outras instituições privadas. Foi presidente do Comitê de Energia e Atmosfera para o Referencial CASA/Condomínio do GBC Brasil e colaborador da Certificação Zero Energy. Trabalhou para empresas multinacionais implementando Programas de Eficiência Energética para edifícios existentes (Operação e Manutenção) melhorando o desempenho energético-ambiental dos sistemas prediais. Fundou em 2017 a PHS Eficiência Energética, empresa especializada em Eficiência Energética, Conforto Ambiental, Simulações computacionais e Edifícios Zero Net Energy. Atualmente é Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie com a matéria de Eficiência Energética para Edificações.