Faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores para funções básicas na construção civil

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo. Em meio a 14,8 milhões de brasileiros desempregados – a maior marca desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE em 2012 – há setores que estão contratando e vivem uma realidade completamente diferente da que predomina no País. Na construção civil, faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores para preencher vagas em funções básicas.

Os bolsões de aquecimento do mercado de trabalho com e sem carteira assinada estão concentrados em praticamente três de dez setores da economia – agropecuária, construção civil e nos serviços prestados a empresas –, revela um estudo feito pela consultoria IDados, a pedido do Estadão, com base na PNAD Contínua. Em maio deste ano, a construção civil empregava quase 12% a mais de trabalhadores do que em maio de 2020, no auge da crise sanitária. Em seguida vem a agropecuária, com avanço de cerca de 10% no pessoal ocupado, na mesma base de comparação. Por fim, estão os serviços prestados a empresas, que registraram perto de 6% de crescimento.

Sem parar

Na construção civil, especialmente na capital paulista, o quadro não é diferente. Empreiteiras da cidade de São Paulo, que virou um grande canteiro de obras na pandemia, enfrentam a falta de pedreiros, encanadores, eletricistas, carpinteiros, armadores, operadores de guinchos, conta o, vice-presidente de Relações Institucionais do Sinduscon-SP, Yorki Estefan. Ele argumenta que a demanda está sendo puxada pelo aumento do número de lançamentos na construção civil, que cresceu 183% no primeiro semestre deste ano na capital em relação ao mesmo período de 2020.

“Hoje precisamos de dez pintores e não encontramos para contratar”, afirma Gilvan Delgado, diretor e dono da empreiteira Atacama, que presta serviço às construtoras. Ele conta que muitos dos que se candidatam às vagas não são qualificados.

O reflexo da escassez aparece nos salários. “O dissídio dos trabalhadores em maio foi por volta de 7% e estamos tendo de pagar 15% para funções básicas”, explica Mario Rocha, CEO da construtora Rocontec, com 28 obras na capital. Com os prêmios, Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), conta que atualmente há pedreiros que chegam a tirar R$ 8 mil por mês, enquanto o piso da categoria é de R$ 2.030 por 44 horas semanais.

O temor dos empresários e do sindicato é que a falta de mão de obra piore no final deste ano e início de 2022 por causa do lançamentos já engatilhados. “Estamos preocupados com apagão de mão de obra”, afirma Ramalho, do Sitracon-SP. O sindicato acaba de fechar um convênio com o Sebrae/Senai para qualificar gratuitamente 40 mil trabalhadores em 2021 e 2022 para as funções básicas da construção civil.