Sesc 24 de Maio, no centro da cidade: arquitetura integrada Foto: Felipe Rau/Estadão.

Por Ana Lourenço, O Estado De S.Paulo. A beleza da tal “dura poesia concreta” das esquinas de São Paulo, como canta Caetano Veloso em Sampa, vai muito além de seus edifícios. De obras públicas a residências, grandes criações arquitetônicas se espalham pela selva de pedra, fazendo com que a cidade seja uma das poucas no mundo a dispor de um acervo tão rico em arquitetura.

“Existe um turismo arquitetônico muito forte em São Paulo. É muito comum recebermos grupos de professores e estudantes de arquitetura que vêm de diversos países conhecer a cidade”, conta Fabio Valentim, arquiteto, professor da Escola da Cidade e organizador do livro Um guia de arquitetura de São Paulo: doze percursos e cento e vinte e quatro projetos (R$ 59,90).

Lançado no fim de 2019, em parceria com a editora WMF Martins Fontes, o livro propõe uma compreensão da grandeza da cidade paulista com suas várias regiões e territórios e seus recém-completados 467 anos de história.

Residência Hélio Olga Jr: instalado em terreno com seis pontos de apoio e quatro andares, o edifício foi projetado por Marcos Acayaba e Mauro Halluli entre 1987 e 1990
Residência Hélio Olga Jr: instalado em terreno com seis pontos de apoio e quatro andares, o edifício foi projetado por Marcos Acayaba e Mauro Halluli entre 1987 e 1990 Foto: Nelson Kon.

Como o próprio nome sugere, o guia seleciona 124 obras de arquitetura, as quais são agrupadas em 12 percursos da cidade, desde o centro até regiões mais periféricas. Estruturas mais conhecidas, tais como o Parque do Ibirapuera, Edifício Copan, Masp e Pinacoteca, ganham destaque no livro. Mas, além delas, o guia também engloba edifícios imobiliários como o Lausanne, na Avenida Higienópolis; construções públicas, como os CEUs (Centro das Artes e Esportes Unificados); além de instituições privadas, como o Sesc. 

“O Sesc 24 de Maio, por exemplo, é um lugar muito legal no sentido de mostrar como a arquitetura pode moldar um programa, uma maneira de usar um edifício muito diferente do que a gente pensa. Isso depende não só do arquiteto, mas também de uma instituição que queira apostar nisso”, explica Fabio. 

O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) foi projetado por João Batista Vilanova Artigas na década de 1960
O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) foi projetado por João Batista Vilanova Artigas na década de 1960 Foto: Antonio Milena/Estadão.

Junto aos projetos, são revelados momentos históricos relevantes da cidade de São Paulo na época da construção dos edifícios, de maneira que exista uma sequência gradual de diferentes estilos arquitetônicos ao longo do livro. “São várias experiências, que foram respondendo à economia e à política brasileira”, conta ele. De modo geral, no entanto, o grande enfoque do guia está na arquitetura moderna e contemporânea, destacando grandes nomes como Oscar Niemeyer (1907-2012), Vilanova Artigas (1915-1985), Lina Bo Bardi (1914-1992), Rino Levi (1901-1965) e Paulo Mendes da Rocha (hoje com 92 anos).

Colaboração

Para reunir todo o material necessário para a elaboração do livro, o autor contou com o apoio de diversos simpatizantes da Escola da Cidade, importante instituição de ensino de arquitetura e urbanismo de São Paulo. “Eu fiz a curadoria, mas vários professores fizeram os verbetes relativos a cada obra; os alunos foram importantes tanto na questão de pesquisa quanto na organização do roteiro; vários fotógrafos de arquitetura contribuíram com fotos”, exemplifica Fabio.

O CEU Rosa da China, em Sapopemba, foi projetado nos anos 90 por Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza, e levou a arquitetura moderna para a periferia
O CEU Rosa da China, em Sapopemba, foi projetado nos anos 90 por Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza, e levou a arquitetura moderna para a periferia Foto: Nelson Kon.

Mesmo durante a pandemia, o guia continua atual, uma vez que propõe um reencontro com a cidade. “De uma certa maneira, a pandemia fez com que a gente valorizasse mais o que tínhamos anteriormente, que é o espaço público em sua multiplicidade de coisas”, avalia Fabio. Com os devidos cuidados, é possível visitar as obras citadas: seja marcando um horário para visitação nos sites das instituições abertas ou mesmo observando os edifícios da rua, sem a necessidade de entrar. 

Casa de Vidro Lina Bo Bardi: marco da arquiterura moderna, edificada em 1950 e 1951. O vidro a coloca como parte da natureza, mas, por dentro, paredes garantem privacidade
Casa de Vidro Lina Bo Bardi: marco da arquiterura moderna, edificada em 1950 e 1951. O vidro a coloca como parte da natureza, mas, por dentro, paredes garantem privacidade Foto: Gabriela Biló/Estadão.
Concebido como o primeiro centro cultural multidisciplinar do País, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) ocupa uma área de 46 mil metros quadrados. O projeto da estrutura, que utiliza concreto armado e ferro, é de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles
Concebido como o primeiro centro cultural multidisciplinar do País, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) ocupa uma área de 46 mil metros quadrados. O projeto da estrutura, que utiliza concreto armado e ferro, é de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles Foto: Nelson Kon.