Loja de material de construção em São Raimundo Nonato. Foto: Manoel Ventura / Agência O Globo.

Por Manoel Ventura, O Globo. O servente de pedreiro Edvaldo dos Santos separou parte das parcelas do auxílio emergencial pagas pelo governo a trabalhadores informais nesta pandemia para melhorar as condições de sua casa, em São Raimundo Nonato, por meio de material de construção.

A moradia foi conquistada por meio de um programa habitacional do governo do Piauí com recursos federais há cinco anos, mas só agora ele colocou cerâmica na cozinha e um piso de cimento na frente do imóvel.

— É um dinheiro que não dá para fazer uma grande reforma, mas pelo menos consegui melhorar um pouco as coisas que a gente precisa — conta.

Como Santos, muitos beneficiários do auxílio foram além do consumo de alimentos e aproveitaram o valor mais alto que o Bolsa Família para investir em pequenas reformas. Isso gerou um aumento na demanda por material de construção e mão de obra.

Muitas lojas em São Raimundo ficaram sem produtos, e os preços subiram, como em todo o país. Segundo o IBGE, o cimento ficou 10,67% mais caro neste ano e o tijolo, 16,86%, bem acima da inflação média de 0,70% acumulada até agosto.

A alta vem desde o começo da pandemia, mas se intensificou nas últimas semanas. Só em agosto, o cimento subiu 5,42% e o tijolo, 9,32%.

Estoque acaba rápido

Depois de móveis e eletrodomésticos, as vendas de material de construção foram as que registraram maior crescimento mês passado: 22,7% em relação a agosto de 2019.

Pesquisa recente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) apontou que 95% das 462 empresas do setor em 25 estados verificaram aumento no preço do cimento e 90% no de cabos elétricos. No caso do concreto, 81% perceberam aumento.

Sondagem da Associação Nacional de Comerciantes de Material de Construção (Anamaco) também indicou alta na percepção dos varejistas de junho a agosto.

Dona de uma casa de material de construção em São Raimundo, Izaíra Siqueira estima que suas vendas triplicaram. Se no começo da pandemia ela achou que teria que demitir, logo a demanda gerada pelo auxílio mostrou o contrário.

— Tive que contratar mais 30 funcionários para dar conta de tudo — conta. — Nunca vi um negócio desse. As pessoas querem melhorar sua moradia, e viram no auxílio uma oportunidade. Não é nada luxuoso, é o direito delas.

Cimento, ferro e madeira foram os itens mais procurados na loja dela. As vendas de blocos foram tantas que ela está sem estoque do item agora. Na cidade, que atrai consumidores dos municípios pequenos dos arredores, como Guaribas, também há relatos de falta de ferro e gesso para entrega imediata. Resultado: os preços subiram.

— Aqui, os materiais de construção aumentaram em média 15%. Tudo ficou mais caro — diz a empresária.

Os recursos do auxílio mexeram com a economia de São Raimundo Nonato e geraram oportunidades de trabalho, ainda que temporárias.

— Os pedreiros estão mais requisitados que nunca, e o tempo de espera por um deles pode chegar a três semanas — conta Espedito Rodrigues, enquanto aguarda na fila da Caixa, no centro da cidade, para sacar o auxílio emergencial.

Desempregado, ele pretende usar a última parcela de R$ 600 para terminar um muro em sua casa. Enquanto isso, tenta incrementar a renda ajudando caminhoneiros a descarregarem na região.

— A gente não consegue construir do zero com o auxílio, nem ampliar a casa. Mas dá para usar esse dinheiro para melhorar a situação da casa.

Falta de saneamento e estrada de terra

Quase 20 anos depois de Guaribas ser escolhida como cidade-piloto do Bolsa Família, as transferências de renda impediram muitas famílias de experimentar a pobreza extrema, mas moradores ganharam pouco em infraestrutura.

A estrada que dá acesso a Guaribas a partir de São Raimundo Nonato está sendo asfaltada. Mas ainda resta um trecho de terra de cerca de 20 quilômetros, com muita areia e acesso difícil para carros sem tração nas quatro rodas.

Na cidade, o calçamento, onde ele ainda existe, é precário, esburacado e com pedras soltas ao longo das poucas ruas da zona urbana, onde vivem cerca de 1,3 mil moradores, pouco menos de um terço da população, segundo o IBGE.

Um problema na caixa d’água da cidade faz que com que só as casas que ficam mais perto do equipamento sejam abastecidas pela rede de distribuição. O saneamento básico praticamente depende de soluções individuais.

— Água era um problema que tinha sido resolvido. Mas agora quem mora um pouco mais distante da caixa d’água precisa ir buscar ou a água só chega com caminhão-pipa — relata Francisca Teixeira, que trabalha num pequeno restaurante da cidade. — Energia elétrica não tem sido um problema. Se cai, logo eles resolvem — diz, num raro elogio.

Apenas uma operadora de telefonia celular opera na cidade, o que prejudica o acesso à internet, cuja conexão é lenta e irregular.

Essa é uma característica dos municípios dessa região, que ainda têm no rádio AM uma forma eficaz e rápida de mandar recados e avisos, principalmente para os moradores da zona rural.

Em São Raimundo Nonato, considerada a cidade mais desenvolvida da região, o aeroporto inaugurado em 2015 — que tem “internacional” só no nome — está às moscas. Não recebe voos comerciais.

O terminal passou mais de uma década em obras, e foi construído para facilitar o acesso de turistas e pesquisadores ao Parque Nacional da Serra da Capivara, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco devido à concentração de sítios arqueológicos.