Tudo isso gera problemas conhecidos e dos quais não podemos nos orgulhar, tais como: baixa produtividade, baixa previsibilidade no cumprimento de custos e prazos, fragilidade financeira e baixa atratividade de investidores que preferem investir seus recursos em negócios com menor nível de incerteza.

O artigo da McKinsey: “Breaking the mold: the construction players of the future”, de outubro de 2019, destaca que o Setor de Engenharia e Construção tem sido muito criticado pelo atraso, no que tange às transformações digitais.

As tecnologias digitais transformaram muitos setores econômicos, passando pela indústria automotiva, aeronáutica, farmacêutica, de alimentos e bebidas e de transporte, além do setor financeiro (neste quesito os bancos brasileiros são uma referência global). Até a agricultura, que historicamente sempre foi lenta na direção das transformações, deu um salto enorme em direção à digitalização.  A figura a seguir mostra a evolução do valor adicionado por hora trabalhada, por setor da economia, a partir de 1950.

Figura 1: evolução do valor adicionado por hora trabalhada, por setor da economia. Fonte:  BARBOSA et al. (2017)

Observa-se que o Setor de Engenharia e Construção está estagnado desde 1950 e é responsável por quase nenhuma evolução no valor adicionado por hora trabalhada, o que é lamentável e gera um sentimento de “orgulho reverso”.

Justificativas para o ingresso tardio do setor de Engenharia e Construção no mundo digital

Várias são as justificativas para o atraso no ingresso do Setor de Construção no mundo digital e para avançar nas transformações pelas quais terá que passar, para se reinventar e consolidar uma posição menos vulnerável (ou mais robusta) no mercado futuro:

  • Fragmentação e baixo nível de integração e colaboração na Cadeia de Valor;
  • Falta de união das lideranças e das instituições e entidades que representam o setor;
  • Abordagem pontual para cada projeto (design) e construção, de forma que cada novo empreendimento seja considerado um “protótipo”;
  • Dificuldades para a contratação, capacitação e retenção de mão de obra direta;
  • Deficiências de:
    – Engenharia & Projeto (Design);
    – Gerenciamento, Coordenação e Compatibilização de Projeto;
    – Processos e Sistemas Computacionais para a gestão de projetos e da produção (obras);
  • Pouco investimento em P&D, Tecnologia e Inovação;
  • Centralização das decisões de investimento, com ausência de um processo estruturado para inovação;
  • Contratos & Incentivos desvinculados das Metas e do Desempenho planejados.

Tudo isso gera problemas conhecidos e dos quais não podemos nos orgulhar, tais como: baixa produtividade, baixa previsibilidade no cumprimento de custos e prazos, fragilidade financeira e baixa atratividade de investidores que preferem investir seus recursos em negócios com menor nível de incerteza.

Em direção às mudanças

Felizmente este contexto está mudando: executivos provenientes de outros setores industriais que já passaram por transformações, startups e investidores estão percebendo o potencial da tecnologia e da inovação aplicada a materiais e sistemas construtivos para acelerar projetos, reduzir prazos, custos e melhorar a previsibilidade de uma indústria que produz US$ 10 trilhões por ano e emprega 7% da população mundial.

No meio de tantas tendências tecnológicas, socioambientais, econômicas, demográficas e culturais, que mantêm o mundo em constante ebulição e transformação, surgem novos modelos de negócios que:

  • Exploram a enorme oportunidade representada pelas deficiências do setor oferecendo ganhos de produtividade, qualidade, desempenho;
  • Possibilitam a redução de custos e prazos;
  • Permitem o projeto e a produção de edificações mais eficazes e sustentáveis;
  • Oferecem novas experiências na “jornada do cliente”, ao longo do ciclo de vida do empreendimento.

Inovações, tecnologias e ferramentas para alavancar e promover as transformações

No contexto das transformações, sem a pretensão de abordar todos os aspectos, as inovações, tecnologias e ferramentas que estão possibilitando as mudanças setoriais são:

  • Internet das Coisas (IoT);
  • Inteligência Artificial (AI);
  • Simulação Digital;
  • Blockchain;
  • Drones;
  • Realidade Virtual;
  • Realidade Aumentada;
  • Business Intelligence;
  • Computação de Nuvem;
  • Ferramentas de Big data e Analytics;
  • Padronização/Processos;
  • Produção em escala/Construção Industrializada/Construção Modular;
  • Materiais Inovadores;
  • Sistemas Computacionais (ERP, Aplicativos e Softwares de Gestão e Controle);
  • Logística e Integração da Cadeia de Suprimentos;
  • Robôs Autônomos/Mecanização;
  • Manufatura Aditiva (Impressão 3D);
  • BIM (Building Information Modeling);
  • Gestão de Projetos à distância;
  • Pré-construção;
  • Engenharia e Análise do Valor/Target Costing;
  • Lean Construction;
  • Smart Buildings/Smart Cities.

Como está ocorrendo a ruptura na engenharia e na construção?

Ainda de acordo com o artigo da McKinsey mencionado, a seguir será transcrito como as mudanças do Setor de Engenharia e Construção podem ser explicadas por cinco movimentos:

Fluxos de capital

Houve fluxo de capital sem precedentes e sempre crescente, em tecnologia voltada para a engenharia e construção. De 2013 a 2018, os investidores aportaram US$ 18 bilhões em tecnologia, o dobro do que foi investido nos 5 anos anteriores. Espera-se que o crescimento deste volume de recursos seja ainda acelerado. Em agosto de 2019, a Brick & Mortar Ventures anunciou um fundo de tecnologia de construção, com recursos de US$ 97,2 milhões, voltado para o projeto (design), construção, operação e manutenção.

Startups aportando novas tecnologias

Surgiram centenas de startups atuando ao longo de toda a cadeia de suprimentos, acelerando muito o desenvolvimento de tecnologias digitais, impressão 3D, realidade aumentada e virtual, machine learning, simulação digital, dentre outros, produzindo enorme impacto em várias atividades e processos de concepção, incorporação, projeto, orçamento, planejamento, produção (obra), manutenção e operação dos empreendimentos.

Fusões e aquisições

Hoje, as fusões e as aquisições de tecnologia do Setor de Engenharia e Construção estão ocorrendo em larga escala e atingiram o seu nível máximo, em relação aos últimos cinco anos. Este movimento tem sido fortemente influenciado por empresas líderes do setor, tais como: Autodesk (BuildingConnected e PlanGrid), Oracle (Aconex e Textura), ProCore (Honest Buildings) e Trimble (e-Builder e Viewpoint). Grande parte dessas fusões e aquisições se referem à expansão horizontal, pois a barreira é menor do que a vertical (base ampla e diversificada de clientes). Essas fusões e aquisições poderão simplificar os processos digitais, eliminando a necessidade dos participantes do projeto navegarem através de vários sistemas de software.

Liderança e regulamentação do setor público para o uso de tecnologia

Alguns países estão adotando medidas para incentivar a inovação em projetos públicos. Isso se verifica sobretudo no uso do BIM para a modelagem das informações da construção, em 3D (modelo de dados integrados, com representação tridimensional), 4D (duração, planejamento e gestão do tempo), 5D (estimativas, custos, planejamento e gestão das atividades e da construção), 6D (análises de energia consumo). A dimensão 7D é utilizado na operação e manutenção das instalações, durante todo o Ciclo de Vida dos empreendimentos e ainda tem sido utilizada de forma limitada.

Empresas de novas tecnologias demonstram interesse crescente no mercado de Engenharia e Construção

Nesta direção, a subsidiária da Alphabet, a Sidewalk Labs, entrou no mercado de desenvolvedores, enquanto a Amazon está desempenhando um papel relevante no mercado de distribuição de materiais de construção e deverá intensificar ainda mais a sua estratégia de atuação no setor.

Katerra, o principal benchmark

Dada a sua relevância não há como não mencionar a Katerra, uma “startup gigante”, criada em 2015, que tem como propósito buscar a máxima produtividade e verticalizar todo o processo de construção, explorando tecnologia e inovação. Com esta proposta a Katerra captou mais US$ 865 milhões em uma rodada de financiamento liderada pela SoftBank, elevando o total arrecadado pela empresa a US$ 1,1 bi. Este é o maior valor já captado pelas construtechs no mundo todo.

Devemos voltar toda a nossa atenção para esta operação, que deverá gerar lucro somente a partir de 2021, que está liderando e explorando o máximo nível de recursos de tecnologia, transformação digital e inovação aplicados à Engenharia e Construção.

A Katerra atua hoje na América do Norte, Arábia Saudita e Índia, através da verticalização do projeto e da construção, usando sistemas construtivos a partir de estruturas industrializadas de aço, madeira e concreto pré-fabricado, além de CLT (Cross Laminated Timber ou Madeira Laminada Cruzada), sistema construtivo constituído por peças extraídas de madeira de reflorestamento, coladas e prensadas, mas tratadas e orientadas adequadamente, para dar aos elementos estruturais maior resistência mecânica.

Conclusão

Contribuindo com 6% do PIB global, a construção é a maior indústria do mundo. Agora é a hora das entidades, empresários e empresas do Setor de Engenharia e Construção, tomarem decisões ousadas sobre o futuro da construção. A única certeza que temos é que as oportunidades são gigantes e proporcionais aos riscos. Que venham então as grandes emoções, embasadas no bom senso e na competência dos gestores, mas com a velocidade adequada para não perdermos o bonde da história.