Que possamos respeitar, buscar e validar àqueles que com suas virtudes e experiências podem saber o que não sabemos e então assim, juntos e misturados, exercermos o livre arbítrio de tudo podemos bem realizar.

Tudo na vida são relações, não é mesmo? E quando não há relação, ainda assim o é. A não relação é também uma forma de relação. A partir do momento que algo ou alguém existe, passa logo a se relacionar. A vida é de fato uma perene e constante relação. A vida é uma resposta continuada da forma do “ligar-se ou desligar-se” a algo ou alguém. Como indivíduos dotados de livre arbítrio, nossas vidas se dão a partir da forma com que nos relacionamos, nos posicionamos, ativa ou passivamente, com as coisas, com nós mesmos e com o outro.

Para os seres vivos que pensam e sentem, como somos nós, nos relacionamos a partir dos nossos desejos, possibilidades e preferências. A pergunta desta reflexão é: Se tenho livre arbítrio, se sou o dono das escolhas, se está em minhas mãos a forma que dou às relações, então tudo pode? A resposta é clara e objetiva: Sim, tudo pode.

Entretanto, nem tudo convém. Isto, título atemporal de importantes discursos conhecidos, a famosa citação do discípulo Paulo, em I Coríntios 6:12: “Tudo posso, mas nem tudo me convém”. Em pensamentos rasos, pode ser dito: Então nem tudo posso? Uma forma abrangente talvez de responder a esta questão é: Sim e não! Paradoxal, dual e acima tudo de máximo livre arbítrio!

Para muitos de nós, em muitas ocasiões, o significado de livre arbítrio é felicidade! Não nego e ao mesmo tempo sugiro reflexão: Felicidade é quando tudo pode? Invariavelmente depende e ouso até dizer que não. Se penso que felicidade é o exercício de total livre arbítrio, sem que haja na equação pontos de intersecção com o contexto, o resultado “dá ruim”. Explico melhor, a felicidade depende de boas escolhas e nem sempre nossos pensamentos, crenças, emoções, nos permitem preferir algo bom para nós mesmos e/ou para o que nos cerca e tangencia.

O que pensamos e sentimos jamais poderá incluir toda sabedoria. A interconexão melhora muito porque é a somatória de pensamentos e sentimentos em prol de algo que seja de bom tom para muitos. Aliás, compartilho que para mim felicidade está ligada ao quanto podemos proporcionar de bem ao máximo número de pessoas possível, bem como está diretamente relacionada as pessoas que escolhemos ter por perto.

Em uma memorável e aprazível conversa que tive décadas atrás com o querido e competente Simon Franco, na ansiedade que vivia de tudo bem realizar na minha vida e na vida de quem na minha resvalava, ele diz: “Glauce, nem tudo você precisa saber, você pode sempre procurar quem sabe”.

Sempre imaginei o desafio de Moisés ao liderar o grande povo de Israel na fuga da escravidão do Egito. Ele era como o povo, nem mais nem menos dinheiro tinha, nem mais nem menos diplomas tinha, liderava talvez na essência do desejo de bem querer a todos e a cada um. E nessa liderança, penso que muitas vezes ao decidir questões do cotidiano desse povo itinerário, vivendo na escassez de recursos, gerou polêmicas, presenciou desordens, brigas, grupos se dividindo, foi cobrado em talvez julgar quem era certo e quem era errado… e nessa minha imaginação, penso que Deus o abençoou enviando os 10 mandamentos. Era talvez a melhor forma de organizar o tumulto de bom e ruim, certo e errado, para todos ao mesmo tempo.

Deus, em sua onisciência, reuniu de maneira exequível 10 mandamentos como parâmetro de convivência e sobrevivência para o povo. São mandamentos até hoje, ricos em inteligência relacional para uma vida saudável, são perenes em quaisquer culturas, condições e contextos de vida.  Os 10 mandamentos respeitam a cada um e a todos.

1º. Amar a Deus sobre todas as coisas é como amar a vida. Se respeito a Deus e a vida, como condição inicial, tenho bases sólidas para todas as outras coisas. É também uma forma consequente de auto amor e de respeito ofertado a todo aquele que sabe o que eu não sei, que serve o que eu não sirvo.

2º. Não se prostre a ídolos é a clareza inteligente de não colocarmos o pequeno para aconselhar e decidir pelo grande. Não é sobre desrespeitar o menor e sim sobre entender que o maior pode mais que o menor e que por isso é reverenciado. A estima à hierarquia é um privilégio da ordem, do equilíbrio e bem estar pessoal.

3º. Não diga Meu em vão é como não diga o que não sabe, respeite Aquele que tudo sabe e tudo criou. Como derivada, não calunie, nem usufrua das difamações. Não maldiga. É um crime. Não conclua sobre o nome de ninguém, o que você pensa que sabe é só talvez uma pequena parte do todo.

4º. Lembra-te do dia do sábado para santificar é saber que o hábito de agradecer e dobrar os joelhos por tudo aquilo que nem sequer fizemos por merecer, traz ainda mais harmonia, benefícios e recursos de vida.

5º. Honra teu pai e tua mãe é tomar a vida, do jeitinho que ela é, com alegria. É saber receber presentes sem julgar. É olhar para o que é recebido ao invés de olhar com pesar para aquilo que não é recebido.

6º. Não matarás é o ato de tirar a vida de alguém, seja de única vez, seja aos poucos. Assédios, bullying, omissões… são crimes que levam seres vivos ao oposto do que é vida.

7º. Não adulterarás é a traição, que antes mesmo de levar dor ao outro, inunda quem o faz de insegurança. Mentir, fingir e enganar são atos tóxicos principalmente a quem os faz. É como olhar no espelho e não confiar em quem vê. E não confiante em si, não confia em ninguém.

8º. Não furtarás não é algo direcionado somente àqueles que roubam coisas materiais e sim inclui toda e qualquer falta de honestidade e transparência. Devemos cuidar para não subtrair nada do outro, nem tempo, nem saúde, nem esperança.

9º. Não darás falso testemunho, assim como no 3º. mandamento acima mencionado, é o cuidado de não influenciar pessoas e contextos sistêmicos com opiniões e inferências. A intenção de diminuir o outro nunca irá proporcionar mais valia a quem o faz.

10º. Não cobiçarás não significa que não podemos admirar o outro, muito pelo contrário. A ideia é admirar a beleza do outro, as posses do outro como alavanca para nossas próprias conquistas. Desejar e atuar para que o outro não tenha é acomodar-se para não ter o que de bom se vê no outro.

No capítulo 16 do livro Coaching na Prática – Como o Coaching pode Contribuir em Todas as Áreas de sua Vida, da Editora França publicado em 2012, escrevo que todos temos essência linda, amorosa e pura e defendo que atos contrários corroem e fomentam auto boicotes como movimentos de autopunição inconscientemente.

Que possamos liderar nossas vidas, liderar nossos negócios, liderar nossas famílias, grupos e comunidades, considerando de que nem tudo sabemos. Que possamos respeitar, buscar e validar àqueles que com suas virtudes e experiências podem saber o que não sabemos e então assim, juntos e misturados, exercermos o livre arbítrio de tudo podemos bem realizar.

Tudo pode? Sim. Tudo convém? Sim, desde que seja em união de esforços para levar o bom a todos!

O exercício de liberdade de escolha, combinado com a sabedoria que nos é disponível, nos leva a tudo poder com a garantia do regozijo do dever cumprido e da prática do bem.