Sou um árduo defensor de um marketing forte na Ca2 e agora, mais do que nunca.

Marcelo Nudel, Fundador e Diretor da Ca2 Consultores, destaca a importância de se investir nas mídias digitais e em marketing de conteúdo para contornar a crise provocada pela covid-19 e conquistar novos clientes. Confira a entrevista!

Qual é a área de atuação da sua empresa?

A Ca2 é uma empresa multidisciplinar de consultoria e projetos nas áreas de conforto ambiental, acústica, sustentabilidade e luminotécnica. Prestamos serviços para os principais incorporadores e escritórios de arquitetura do país, além de proprietários e operadores de edifícios, como hospitais, escolas e edifícios corporativos.

Como foram as primeiras reações da Ca2 diante do surto de Covid-19?

Quando as primeiras notícias vieram da China, em fevereiro, a noção de gravidade ainda era algo distante, então a empresa seguia normalmente. Quando eu soube da notícia de que as aulas da minha filha mais velha seriam interrompidas, na segunda semana de março, a ficha caiu e percebi que o isolamento rápido seria necessário. Do dia 20 ao 24 de março corremos para nos prepararmos gradativamente para o home office total. Nomeamos uma das sócias do escritório para implementar o sistema de trabalho remoto. O processo foi muito bem feito e de forma muito rápida. Hoje somos um escritório de 16 profissionais todos trabalhando à distância.

Quais foram as primeiras medidas de contenção?

A primeira medida, obviamente, assim como todo o mercado, foi acionar o sistema de home office. Seria impossível continuarmos trabalhando sob o risco de contágio e colocando outros também em risco.

Resolvido esse problema, voltei minha atenção às finanças. A essa altura já estava claro que viria uma crise pela frente e que seria necessário rever custos e metas para mantermos o fluxo de caixa saudável. Sou absolutamente obcecado por manter nosso fluxo de caixa sempre positivo e com foco em metas de lucro. Compreendi rapidamente que teríamos que abdicar de qualquer meta de lucro esse ano e focar na proteção do caixa. Então reduzir custos imediatamente foi necessário. Além de outras medidas de contenção, reduzi meu pro-labore em 50% pelos próximos 3 meses pelo menos.

Estão conseguindo manter as atividades essenciais?

Estamos mantendo as atividades essenciais de forma muito eficiente, apesar das dificuldades. Não imaginaria que iriamos nos adaptar tão bem ao trabalho remoto. Os prazos estão sendo mantidos como de costume e a excelência técnica nas entregas se mantém.

Devemos isso integralmente à equipe, que está absolutamente engajada e motivada e à liderança inequívoca das minhas sócias, as arquitetas Raquel Sanches, Andrea Destefani e Larissa Luiz. Nossa Office Manager, Cynthia Hammoud mantém, como de costume, um olhar clínico e muito eficiente para as finanças e administração geral da empresa, e assim como eu, é obcecada em manter nosso caixa saudável. Nossos engenheiros João Druzian, Adriana Junqueira e Aline Chagas, a arquiteta Marcela Balieiro, e nossos estagiários Marcela, Sofia, Gabriel, Mari, Carol e Jéssica se mantém entrosados e se adaptaram muito bem ao trabalho remoto.

Nesse momento estamos também focando em relacionamento. A Tatiana Espíndola, nossa líder de Marketing, é a responsável pela nossa força nas redes sociais através de um trabalho irretocável ao longo do último ano. Sou um árduo defensor de um marketing forte na Ca2 e agora, mais do que nunca. Quem tentar vender alguma coisa agora vai se frustrar, pois os trabalhos vão rarear. O momento é de reforçar relacionamentos e estamos fazendo isso através do marketing de conteúdo.

Intensificamos a produção de vídeos no nosso canal do Youtube, estamos bastante ativos em conteúdo técnico no Linkedin e Instagram (@ca2consultores) e iniciamos um plano de produção de e-books e lives que estava engavetado pois estivemos com muito trabalho nos últimos dois anos. Esse investimento não tem retorno imediato, ou seja, não trará mais renda durante a crise, mas certamente depois, no longo prazo.

Quais são suas expectativas para o fim do período de isolamento? Há planos de reorganização imediata, ou será necessário um período de transição?

É claro que desejo que isso tudo acabe logo e que voltemos ao normal de antes, mas estou no momento evitando expectativas. Em situações que não podemos controlar (e nesse caso não temos nenhum precedente similar), criar expectativas é pedir para sofrer. Estou simplesmente me preocupando em dirigir a empresa dia a dia dentro da nova realidade.

Acredito também que o processo de fim do isolamento será lento. O isolamento não irá acabar da noite para o dia e com base em um decreto. Ela acaba quando houver segurança para sairmos às ruas, e me parece que isso irá demorar e um longo período de transição será necessário. Isso afetará diretamente os negócios do setor, por isso acredito em uma recuperação lenta.

Creio que se levarmos a pandemia a sério como sociedade, fizermos nossa parte ficando em casa e nos cuidando, o impacto na economia será menor no longo prazo. Mas se insistirmos em retomar a economia à força, antes da hora, e por razões que desafiam a ciência, a recuperação será mais lenta.

Estou acompanhando lives e artigos de personalidades do mercado e a percepção geral é de um restante de 2020 muito difícil. Talvez com uma leve melhora no segundo semestre. Já percebo redução nos investimentos por parte de nossos clientes. As novas propostas começaram a rarear e alguns projetos já foram interrompidos.

Alguns clientes também pediram extensão de prazos de pagamento. Como temos reservas em caixa, resultado de um excelente 2019, conseguimos suportar alguns atrasos.  Com algumas exceções, muitos de nossos clientes estão bastante cautelosos, aguardando os acontecimentos dos próximos meses para definir um rumo.

De alguma forma, sua empresa carregará uma mudança permanente após esse período? Qual, e por quê?

Virou clichê dizer que após a pandemia as empresas irão adotar o modelo home office com mais frequência. Concordo. O home office já era realidade em muitas empresas, e deve ser amplificado a partir de agora. Mas não é essa a mudança que vejo para a Ca2. 

A Ca2 não tem o trabalho remoto como prática de costume. Não porque não acreditamos nesse modelo, mas porque gostamos do ambiente do escritório, gostamos de estar juntos.

Montamos no início de 2019 um escritório bem legal, maior, com plantas, muita luz natural, com a nossa cara e bem ao lado da estação Faria Lima do Metrô. O ambiente é ótimo para o trabalho colaborativo e nos sentimos muito bem lá. E gostamos também da interação, da troca de informações rápida, da mentoria presencial dos mais experientes com os mais novos. Então sentimos muita falta disso.  Reconheço as inúmeras vantagens do home office, mas dentro do nosso contexto, o trabalho presencial é uma prática que queremos manter. Acho até que iremos valorizar mais o trabalho presencial.

Uma mudança que eu gostaria de influenciar junto a meus clientes diz respeito à necessidade de reuniões presenciais. Muitos concordarão que certas reuniões podem passar a ser virtuais. Principalmente aquelas reuniões multidisciplinares escalonadas nas quais cada profissional mais escuta do que fala. Isso otimizaria muito o tempo de todos e tornaria as reuniões muito mais objetivas. Gostaria muito de ver isso acontecendo.

O quanto sua vida foi afetada nesse período de quarentena?

Minha vida foi enormemente afetada pela quarentena. Sou pai de duas meninas pequenas (uma de 4 anos e uma de 8 meses). A mais velha está sem aulas, e minha esposa também está trabalhando de casa. Nossa funcionária de casa, que nos ajuda também com as meninas está de quarentena em sua casa. Não estamos saindo para nada, como manda a regra. Nesse caldeirão todo, passar mais tempo com a família é muito bom, mas impõe um peso enorme na produtividade do trabalho, e temos que ser criativos nesse sentido, trabalhando em horários alternativos ou se cobrando menos, por exemplo. Eu sou muito exigente comigo mesmo, em manter uma alta performance no trabalho o tempo todo, mas estou percebendo que durante a quarentena preciso me cobrar menos.

Qual o principal aprendizado que você consegue retirar da situação global? Você mudaria a abordagem inicial sabendo agora das proporções do surto?

Talvez eu seja otimista nessa minha colocação, mas acredito que a humanidade irá constatar que não é invencível e que não tem controle ou tecnologia que a proteja de tudo.

Se esse pensamento for aplicado ao tema do aquecimento global e da depredação de recursos naturais, talvez possamos começar a agir de forma mais eficaz e urgente para reverter os impactos ambientais que a ação humana vem causando ao planeta antes de se tornarem irreversíveis (se é que já não se tornaram). Assim como um vírus está sendo capaz de derreter a economia mundial, as mudanças climáticas também serão, mas de forma ainda mais devastadora, duradoura e irreversível. Sou otimista nesse sentido, creio que aprenderemos muito com essa crise e que a sustentabilidade voltará ao palco principal das discussões e ações em nível global.

Refletindo também sobre aprendizados em uma escala menor, mais especificamente em relação à gestão de uma empresa, estou aprendendo muito com essa crise. Dirigir uma empresa como a Ca2, com o alcance de mercado e escala dos projetos que temos hoje, à distância em meio à essa pandemia não é fácil. Por isso faço questão de atribuir a condução da empresa nesse momento a postura da equipe. Essa crise só comprova a importância que tem o senso de autonomia e confiança que se deposita em uma equipe. Apenas as empresas com essa característica (além obviamente de ter um caixa saudável) sairão vivas dessa crise.


O LIGA Blog está publicando entrevistas com diretores de grandes empresas brasileiras da construção para entender como estão as empresas do setor estão lidando com os desafios proporcionado pela pandemia do coronavírus.

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Marcelo Nudel é arquiteto e urbanista e especialista em Arquitetura e Construção Sustentável com pós graduação pela Universidade de Sydney, Austrália. Atuou pela multinacional de engenharia Arup por 8 anos, coordenando projetos de significativa visibilidade em países como Austrália, EUA, Espanha e Brasil. Assessorou escritórios de arquitetura como como os de Norman Foster, Richard Rogers, Renzo Piano, Jean Nouvel, entre outros de relevância global na concepção de edifícios de alto desempenho ambiental. No Brasil, de 2012 a 2015 destaca-se sua atuação como coordenador de sustentabilidade nos projetos dos principais equipamentos das Olimpíadas Rio 2016 entre eles a Vila dos Atletas, o Centro Olímpico de Treinamento, o Centro de Mídia e o Velódromo. Fundou em 2016 a Ca2 Consultores Ambientais Associados, empresa de consultoria e gestão de projetos sustentáveis, conforto ambiental e eficiência energética de edificações, com atuação em projetos de relevância nacional (Novo Aeroporto de Florianópolis, Universidade Albert Einstein, Retrofit do Hospital Albert Einstein, entre outros) e internacional. É autor de diversos artigos técnicos de visibilidade e concedeu entrevistas à importantes mídias nacionais. Lecionou nas Universidades de Sydney e New South Wales (Austrália) e atualmente é professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Faculdade de Arquitetura Escola da Cidade.