miriam.addor_* por Miriam Addor

A Modelagem da Informação da Construção (Building Information Modeling-BIM) é um novo processo para produzir uma edificação e que pode englobar todo o seu ciclo de vida. Pressupõe a construção de um modelo tridimensional contemplando-se as informações dos objetos a serem construídos. Com isso, pode-se utilizá-lo para se obter dados geométricos, de planejamento, de quantificação, de obra e pós obra. Pela grande amplitude em que este processo pode atuar, ele deve causar muitos impactos em toda a cadeia produtiva e, para tanto, muitas formas atuais de trabalho deverão ser revistas ou alteradas.

O documento mais antigo que se tem conhecimento e que traz os primeiros conceitos de BIM foi um artigo publicado no extinto AIA[1] Journal em 1975 por Charles M. Eastman (EASTMAN, et al., 2008) que definia alguns conceitos isolados como interatividade de elementos nos projetos, atualização de desenhos automática, consistência de dados em projetos, geração simplificada de estimativa de custos, verificação de regras e preceitos em projetos, e facilidades e vantagens no planejamento dos edifícios.

Building Information Modeling (BIM) tem como tradução oficial no Brasil (NBR/ISO 12006-2 e NBR 15965) Modelagem da informação da Construção.

O avanço do BIM no mundo é real. A série de levantamentos da McGraw-Hill Construction mostra que os níveis de adoção do BIM nos EUA cresceram de 28% em 2007, para 49% em 2009, atingindo 71% em 2012 (McGRAW-HILL CONSTRUCTION, 2012), indicando uma forte tendência de crescimento neste processo de trabalho.
Outros dados recém-publicados pela McGraw-Hill Construction informam sobre tendências do uso do BIM no mundo e no Brasil. Na Europa, por exemplo, 41% das empresas contratantes da área de construção civil estão usando BIM entre três e cinco anos, no Japão 80% e na Austrália 50% das empresas participantes da pesquisa usam BIM de três a cinco anos. No Brasil, 40% das empresas que responderam à pesquisa, se encontram em nível médio de implementação do BIM, sendo que 70% destas empresas vem usando BIM de um a dois anos (McGRAW-HILL CONSTRUCTION, 2014). Algumas licitações para contratação de projetos e obras em BIM já ocorrem no Brasil, como é o caso por exemplo da obra da Unidade Operacional da Bacia de Santos, projetos no Metrô de São Paulo e outros.

O BIM é baseado em um modelo tridimensional paramétrico que contém informações a serem utilizadas durante todo o ciclo de vida da edificação por diferentes intervenientes (arquitetos, engenheiros, consultores, orçamentistas, construtores, operadores, mantenedores…).

Apesar de BIM não ser uma tecnologia ou um aplicativo quando se usa BIM depende-se de certas tecnologias e ferramentas, como hardwares e softwares específicos para modelagem e outras necessidades.

Para se utilizar o processo BIM com o seu melhor potencial, necessita-se saber para qual o objetivo e uso que ele será aplicado na construção. Por exemplo para os contratantes pode-se ter como objetivo a redução de erros e alterações de obra, gestão de informações atualizadas e confiáveis e a operação e manutenção da edificação. Já para os projetistas, a confiabilidade na documentação produzida, antecipação de problemas de projeto e assertividade e garantia de melhores soluções.

Existem muitos usos do BIM, dependendo da etapa do ciclo de vida da edificação em que ele é aplicado. Por exemplo, na fase de concepção o modelo pode ser utilizado para criação e concepção com estudos de massa, estudos de movimentação de terra e visualização pelo cliente. Na fase de projeto, propriamente dita, pode-se utilizar o Bim para modelagem 3D paramétrica, validação de códigos e normas, coordenação 3D e detecção de interferências, simulação e análises (estrutura, energética, acústica, iluminação, climatização e outas…) e geração de documentação. Na fase de planejamento de obra, o uso do BIM está focado em extração de quantitativos, planejamento 4D e cronograma físico financeiro. Na fase de construção o BIM pode ter como principais usos o planejamento e ocupação do canteiro de obras, a pré fabricação e fabricação digital, o controle e o planejamento 4D e 5D e “as built”. Na fase pós entrega de obra, o BIM tem como principais usos a programação e manutenção preventiva do edifício, as análises dos sistemas do edifício, a gestão da edificação planejamentos de reformas, e por final o planejamento do abandono da edificação (sua demolição com o reuso de materiais – reciclagem).

Para se construir um modelo BIM deve-se considerar além dos objetivos e usos do BIM quais são os requisitos de projeto envolvidos que devem estar claro e acordados entre toas as partes envolvidas. As informações devem ser objetivas para que possam fazer da construção virtual a realidade da obra. O modelo BIM deve ser construído com base em informações do objeto, ou seja, paredes, janelas, portas, pilares, vigas. Para que estes objetos se adequem ao modelo eles devem ser editáveis (paramétricos), ou seja, poder se submeter a edição de parâmetros como dimensões, materiais e outros. Estes objetos devem compõe o que chamamos de biblioteca BIM e que podem ou não estar atreladas aos softwares BIM. Muitas bibliotecas podem ser construídas pelos fabricantes de produtos, estar disponíveis na internet ou ser construída pelo próprio escritório de projeto ou obra, além daquelas que já vem inclusas nos softwares BIM.

Atualmente existe uma comissão de Norma da ABNT vigente que é a de número ANBT/CEE-134: Comissão de Estudo especial – Modelagem da informação da construção que está instalada desde 2009 e tem as seguintes normas publicadas:

  • NBR ISO 12006-2:2010 Construção de edificação — Organização de informação da construção Parte 2: Estrutura para classificação de informação
  • NBR 15965-1:2011 Sistema de classificação da informação da construção Parte 1: Terminologia e estrutura
  • NBR 15965-2:2012 Sistema de classificação da informação da construção Parte 2: Características dos objetos da construção.
  • NBR 15965-3:2014 Sistema de classificação da informação da construção Parte 3: Processos da construção.

No Brasil ainda temos um grande caminho a percorrer com a implementação do BIM sendo que se observa que algumas empresas de projeto já adotaram o processo e passam a trabalhar desta forma. Na área de obra e construtoras ainda percebe-se a intenção e tentativas isoladas de implementação, sendo que há casos de sucesso já sendo apresentados em Seminários e artigos de revistas técnicas.

Espera-se que o mercado aproveite esta entressafra e aproprie-se deste momento como uma oportunidade para se reciclar e se aperfeiçoar em todos os âmbitos, inclusive no BIM para que possamos logo galgar novos patamares na execução de projetos e obras.

ARQ. MIRIAM ADDOR

Sócio Diretor Addor & Associados

Texto desenvolvido para a revista da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).

[1] American Institute of  Architects