Na edição de 2019 do Concrete Show fui convidada a participar como palestrante na Arena de 120 Ideias organizada pela ConstruLiga, no painel Solução para Cidades. Eu falei sobre pavimentos permeáveis e deixo os slides da palestra disponíveis.

Mas neste post gostaria de comentar das palestras do Luiz Orsini e Guilherme Castagna que assisti no mesmo painel drenagem urbana. Luiz Orsini, engenheiro consultor na área de drenagem urbana e recursos hídricos, mostrou um panorama sobre a situação da drenagem urbana no Brasil com base em dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) de 2015 /2017.

A pesquisa de 2017 foi respondida por 3733 municípios, que correspondem a 84% da população brasileira. Desses municípios 51% registraram inundações e alagamentos nos últimos 5 anos, com mais de 1 milhão de pessoas desabrigadas e 374 mortes decorrentes as enchentes. Ainda assim, 70% desses municípios não têm mapeamento das áreas de risco e 80% não possuem Plano Diretor de drenagem e manejo de águas pluviais.

Um outro dado interessante apresentado foi o valor gasto para o apoio a drenagem urbana em comparação com o valor gasto com ações de defesa civil – valor empenhado para “reação” aos desastres = 8,6 vezes o valor empenhado para a prevenção!

A prevenção custa menos que a reação ao desastre e apesar da criticidade da questão da drenagem urbana ainda é um setor que precisa de muito investimento e atenção. Luiz Orsini pontuou a necessidade de atuar na gestão integrada das águas urbanas, ou seja, combinando esgoto, manejo de águas pluviais, resíduos sólidos e abastecimento, a estruturação da prestação dos serviços com cobrança especifica para a gestão da drenagem e a necessidade de usar novas tecnologias, como modelos matemáticos para suporte a decisão, o reaproveitamento da água da chuva e privilegiar o controle do escoamento na fonte.

Manejo integrado das águas urbanas

Na sua palestra Guilherme Castagna, sócio fundador da Fluxus Design Ecológico, também afirmou a necessidade do manejo integrado das águas urbanas, promovendo opções locais de abastecimento, tratamento efetivo das águas servidas aproveitando os nutrientes e energia que podem ser obtidas no processo de tratamento e o manejo sustentável das águas pluviais privilegiando a gestão local através do reaproveitamento, infiltração e amortecimento da água da chuva.

Hoje já se fala no conceito das cidades sensíveis a água, onde a gestão das águas tem um papel de melhorar as características das cidades e promover oportunidades de recreação e biodiversidade. O CRCWSC (The Cooperative Research Centre for Water Sensitive Cities), um centro de pesquisa australiano multidisciplinar para a temática da água no ambiente urbano. A combinação dos conceitos de florestas urbanas e gestão de águas pluviais atua na redução das ilhas de calor e melhora geral na qualidade de vida e saúde da população.

Guilherme Castagna apresentou ainda alguns projetos realizados com esses conceitos, tendo por exemplo obtido nos projetos Harmonia 57 e Estádio Mané Garrincha 100% da demanda não potável com reaproveitamento da água da chuva. Esses dois projetos estão detalhados nas iniciativas inspiradoras de saneamento no site Solução para Cidades.

O setor da drenagem urbana no Brasil ainda tem muito espaço para crescer e é importante que este crescimento seja feito considerando conceitos atuais de gestão integrados das águas ao invés de manter a filosofia já obsoleta de simplesmente afastar as águas da fonte e não aproveitar as oportunidades positivas desta gestão.