O Sistema de Camadas sobre alvenaria é constituído por: alvenaria em bloco cerâmico, chapisco, emboço, argamassa colante e revestimento cerâmica; esse é o sistema mais simples e mais comum.

Neste artigo gostaria de expor uma análise técnica de algumas manifestações patológicas causadoras de ruptura nas interfaces das camadas de um sistema de revestimento cerâmico aderido em fachadas de edificações. Este sistema é o mais utilizado em fachadas revestidas com cerâmica nas edificações de múltiplos pavimentos no Brasil. Analisaremos as interfaces das camadas desde o substrato base de assentamento, desde a superfície da vedação, até sua face final, a própria peça cerâmica. Procurarei identificar, expor e analisar as características e os riscos do surgimento de anomalias construtivas nesses sistemas.

Esses entendimentos são baseados na experiência prática, teórica e na ótica do que temos realizado na ENGETERRA, através de estudos técnicos de revitalização de fachadas e em milhares de metros quadrados executados em obras de fachadas revitalizadas. De forma lúdica, imaginemos o sistema de revestimento cerâmico aderido como um “sanduíche” de várias camadas. Embora existam vários tipos de sistemas, neste artigo analisaremos os mais usuais:

– Sistema de Camadas sobre alvenaria
– Sistema de Camadas sobre estruturas de concreto

A variação do substrato base entre alvenaria ou concreto armado, a variação da espessura da camada de emboço por erros de prumada, os procedimentos de cura ou de aplicação da argamassa colante, são alguns fatores que pedem bastante atenção e determinam a escolha técnica de componentes de alguma camada ou implementação de técnicas e produtos adequados para cada caso.

Voltando as atenções aos sistemas escolhidos, contata-se que os dois tipos de situações são os mais corriqueiros em obras nacionais desta natureza e características, assim, se tornam fundamentais seus entendimentos, métodos construtivos, métodos de reparo e comportamentos ao longo de sua vida útil.

Sistemas de Camadas – Sobre alvenaria ou sobre concreto armado

O Sistema de Camadas sobre alvenaria é constituído por: alvenaria em bloco cerâmico, chapisco, emboço, argamassa colante e revestimento cerâmica; esse é o sistema mais simples e mais comum. Já o Sistema de Camadas sobre concreto armado é constituído por: concreto armado, chapisco colante, tela metálica, emboço, argamassa colante e revestimento cerâmico; este requer um pouco mais cuidado e técnica, pois novos “ingredientes” surgem no “sanduíche”.  Jamais nenhuma dessas camadas deve ser suprimida, seja qual for o sistema.

Seguindo a concepção de que quanto menos heterogêneo for um sistema, mais estável e confiável ele é, desde que obedecidas as exigências normativas e a boa técnica de execução, temos nesses sistemas uma base segura para a grande maioria das áreas revestidas no Brasil. Para os dois Sistemas de Camadas apontados, temos quatro interfaces, são elas:
1ª – Bloco de tijolo cerâmico ou Concreto armado/Chapisco ou Chapisco Colante; 2ª – Chapisco ou Chapisco Colante/Emboço; 3ª – Emboço/Argamassa Colante; 4ª – Argamassa Colante/Revestimento Cerâmico.

Antes da análise em si, faz-se importante compreender que o quesito mais significante quando tratamos de sistemas de revestimento cerâmico em fachadas é a aderência. Segundo o significado linguístico, temos para a palavra “Aderência” o seguinte: qualidade ou atributo do que é aderente, união de uma coisa com outra ou outras, junção; ou seja, aderência é tudo o que precisamos como aliada da segurança e da estabilidade em um revestimento de fachada em todas as suas interfaces. Partindo deste ponto, o que poderia prejudicar essa aderência nas interfaces dessas camadas?

Problemas de aderências entre as interfaces

Alguns fatores devem ser observados para que se entenda o porquê de haver problemas entre as interfaces de um sistema de revestimento cerâmico aderido em fachadas, mas todos eles irão migrar, preferencialmente, para o resultado final de falta aderência. Elegerei aqui cinco situações para analise, as mais usuais que venho encontrando nestes últimos anos de convívio prático e teórico com essas manifestações patológicas na cidade de Fortaleza/CE e em alguns lugares do Brasil. Para análise desses problemas nos sistemas escolhidos, convido a fazermos um passeio sobre a essência da Engenharia Diagnóstica, com seus elementos de: Diagnóstico, Prognóstico e Prescrição; fundamentos básicos para a Patologia das Edificações.

Desprendimento volumétrico

DESCRIÇÃO: Trata-se de um desprendimento de todo volume de revestimentos, desde o chapisco até a cerâmica, incluindo toda a composição da massa de enchimento. Considero um dos mais perigosos sinistros em fachadas de edificações.

LOCAL DA RUPTURA: Normalmente ocorre na interface do substrato de Concreto Armado/Chapisco, não é comum vermos essa ocorrência em interfaces de Alvenaria/Chapisco.

DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Falta de aderência do chapisco na estrutura de concreto. A superfície de concreto se apresenta complemente aparente, como se fora recém desformada. As prováveis causas são: a falta de aderência da camada de chapisco com a peça de concreto e pode ser motivada por: contaminação (sujidades, pós, oleosidades, resíduos de fôrmas…) presente na face da peça de concreto a ser revestida, traço inadequado de chapisco (chapisco “fraco”), falta de cura do chapisco, grande espessura do revestimento argamassado, sobrecargas não projetadas, deformação lenta do concreto armado.

INÍCIO DA MANIFESTAÇÃO E PROGNÓSTICO PROVÁVEIS: Presença de som cavo quando submetido à percussão, surgimento de fissuras de repetidas na mesma região em pavimentos distintos, fissuras de borda, desprendimento do volume.

PRESCRIÇÃO PROVÁVEL: Na etapa de execução: Exigir projeto de completo de execução de fachada, seguir fielmente as indicações do projetista, exigir o alinhamento da estrutura de concreto armado da edificação para evitar altas espessuras de prumadas. Para obras de recomposição de revestimento cerâmico: Extração do volume comprometido, descontaminação do substrato, aplicação de chapisco colante com cordões horizontalizados sobre a estrutura de concreto, aplicação de tela metálica adequada e emboço de recomposição.

Argamassa colante: tempo em Aberto excedido

DESCRIÇÃO: Trata-se da ultrapassagem do tempo permitido ao pedreiro para que ele assente um revestimento cerâmico sobre uma argamassa colante fresca aplicada na superfície da fachada.

LOCAL DA RUPTURA: Normalmente ocorre na interface Argamassa Colante/Revestimento Cerâmico.

DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Falta de aderência do revestimento cerâmico à argamassa colante. Por algum motivo (desatenção, imprudência, imperícia…) o pedreiro assentador aplica uma camada de argamassa colante em uma área muito extensa ou realiza um assentamento de forma morosa. O tempo em aberto está intimamente relacionado com a dimensão do pano de aplicação aberto pelo pedreiro e sua velocidade de assentamento. É certo que, ultrapassado este tempo, a argamassa se torna imprópria a receber cerâmica, pois já iniciou seu processo de endurecimento. Com o desprendimento das peças cerâmicas, serão perceptíveis os cordões não desmanchados de argamassa colante deixados pela desempenadeira dentada.

INÍCIO DA MANIFESTAÇÃO E PROGNÓSTICO PROVÁVEIS: Presença de som cavo quando submetido à percussão, eventualmente formações abauladas (“barrigas”) no revestimento cerâmico, desprendimentos de peças recorrentes com pouca ou nenhuma argamassa em seu tardoz.

PRESCRIÇÃO PROVÁVEL: Na etapa de execução: Abrir panos de assentamento de acordo com a velocidade de assentamento do pedreiro, mas preferencialmente com dimensões de no máximo 1m², em locais com presença de agente catalizadores de secagem superficial (insolação, calor, ventos…) utilizar as argamassas com aditivos de para tempo estendido (tipo AC III – E). Para obras de recomposição de revestimento cerâmico: após a extração de todo revestimento cerâmico e das áreas com argamassa colante instáveis, recompor a planicidade, aplicar o novo revestimento cerâmico e recompor as juntas elásticas. Nunca aplicar mais água à mistura.

Arraste de assentamento não executado

DESCRIÇÃO: Trata-se do posicionamento inicial, momento do assentamento, da peça cerâmica ou da tela de peças próximo a sua posição definitiva. A partir deste contato inicial com o substrato base de assentamento, é promovido o arraste, com as mãos, para o ponto final de paginação da peça fazendo com que os cordões deixados pela desempenadeira dentada sejam desmanchados.

LOCAL DA RUPTURA: Normalmente ocorre na interface Argamassa Colante/Revestimento Cerâmico.

DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Falta de aderência do revestimento cerâmico à argamassa colante. Por algum motivo (desatenção, imprudência, imperícia…) o pedreiro assentador aplica o revestimento cerâmico sem a técnica do arraste. Usualmente utilizando somente uma marreta de borracha para bater nas peças cerâmicas, os cordões não são desmanchados, a área de contato cerâmica/argamassa colante fica reduzida e a aderência de colagem comprometida. Com o desprendimento das peças cerâmicas, serão perceptíveis os cordões de argamassa colante amassados e não desmanchados.

INÍCIO DA MANIFESTAÇÃO E PROGNÓSTICO PROVÁVEIS: Presença de som cavo quando submetido à percussão, eventualmente formações abauladas (“barrigas”) no revestimento cerâmico, desprendimentos de peças recorrentes com pouca ou nenhuma argamassa em seu tardoz.

PRESCRIÇÃO PROVÁVEL: Na etapa de execução: Exigir do assentador o arraste das peças ou placas de peças com as mãos (com treinamento e capacitação) e restringir o uso da marreta de borracha a pequenos ajustes de posicionamento das peças ou telas. Para obras de recomposição de revestimento cerâmico: após a extração de todo revestimento cerâmico e das áreas com argamassa colante instáveis, recompor a planicidade, aplicar o novo revestimento cerâmico e recompor as juntas elásticas.

Descolamento cerâmico por pulverulência de substrato

DESCRIÇÃO: Trata-se de um descolamento e desprendimento de revestimento cerâmico por falta de adesividade proporcionada pelo excesso de partículas soltas (pulverulência) na face externa da camada de revestimento argamassado – Emboço.

LOCAL DA RUPTURA: Na interface Emboço/Argamassa Colante.

DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: A peça cerâmica se desprende trazendo, normalmente toda argamassa colante presa ao seu tardoz, assim, a aderência na interface cerâmica/argamassa colante está preservada, porém, na interface argamassa colante/emboço percebe-se uma fina do emboço camada pulverulenta presa à argamassa colante. As prováveis causas são: falha ou falta de cura do revestimento argamassado – Emboço, os finos do agregado do emboço absorvem mais água que seus aglomerantes que não reagem totalmente, excesso de aglomerante (nem todos se transformam em ligante) deixando partículas sem reação, excesso de exsudação, exposição demasiada do emboço recém-executado à agentes catalizadores de secagem superficial (insolação, calor, ventos…).

INÍCIO DA MANIFESTAÇÃO E PROGNÓSTICO PROVÁVEIS: Presença de som cavo quando submetido à percussão, eventualmente formações abauladas (“barrigas”) no revestimento cerâmico, desprendimentos de peças recorrentes trazendo uma fina camada de emboço (01-02mm)

PRESCRIÇÃO PROVÁVEL: Na etapa de execução: No momento da execução do emboço, mitigar fatores que possam extrair água da superfície deste revestimento argamassado, como evaporação, insolação, exsudação e ventos que ressecam sua face externa. Promover cura adequada e checar traços propostos. Para obras de recomposição de revestimento cerâmico: deve ser extraída esta fina camada por meio de desbaste rotativo e verificar, através de testes e ensaios técnicos, a possibilidade deste revestimento argamassado original ser recomposto e reutilizado para assim receber um novo revestimento cerâmico.

Excesso de engobe no tardoz das peças

 Excesso de engobe no tardoz das peças

DESCRIÇÃO: Trata-se de uma presença excessiva de engobe (pó branqueado) no tardoz das peças do revestimento cerâmico.

LOCAL DA RUPTURA: Ocorre na interface Argamassa Colante/Revestimento Cerâmico.

DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Falta de aderência do revestimento cerâmico à argamassa colante. Por algum motivo (erro em processo industrial, imprudência, imperícia…) a indústria ceramista aplica mais engobe no tardoz das peças cerâmicas que o aceitável. O engobe cumpre o papel de auxiliar na movimentação das peças cerâmicas recém-fabricadas nas esteiras da fábrica, aplicado em excesso, se torna um material isolante muito prejudicial à aderência no momento da aplicação do revestimento cerâmico na fachada.

INÍCIO DA MANIFESTAÇÃO E PROGNÓSTICO PROVÁVEIS: Presença de som cavo quando submetido à percussão, eventualmente formações abauladas (“barrigas”) no revestimento cerâmico, desprendimentos de peças recorrentes com pouca ou nenhuma argamassa em seu tardoz, presença de engobe na seção de ruptura.

PRESCRIÇÃO PROVÁVEL: Na etapa de execução ou para obras de recomposição de revestimento cerâmico: Observar previamente o revestimento cerâmico quanto a presença de engobe. Sempre irá existir o engobe, mas caso em excesso, opte por devolver o produto ou por extrair de forma eficaz este material.

Comentários e conclusão

Estas cinco situações apresentadas são bem distintas, ao ponto de sua sintomatologia tornar menos difícil o trabalho do perito ou do patologista. Me deparo constantemente com essas situações de risco, edificações necessitando urgentemente de manutenções corretivas. Percebo de forma muito clara vários casos em que os usuários de algumas edificações contam com a sorte divina de não ocorrer acidentes graves ou fatais, já os de outras edificações são mais cautelosos. Como de costume, não custa lembrar:

Concluo que, se observados estes pontos, certamente serão suprimidas as maiores e mais corriqueiras manifestações patológicas originárias de anomalias construtivas nas interfaces dos sistemas de revestimento cerâmico aderido, e ainda, se reparadas como exposto, tem-se uma condição extraordinária de obtermos um desempenho satisfatório, uma vida útil renovada e uma edificação segura.

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Engenheiro Civil Especialista Lawton Parente de Oliveira. Segue breve perfil profissional: • Engenheiro Civil inscrito no CREA-CE sob o No. 13.104–D e RNP No. 0607647086, graduado na Universidade de Fortaleza – UNIFOR - 1998; Pós-Graduado em Engenharia Diagnóstica e Patologias das Edificações – INBEC/Universidade Cidade de São Paulo - 2014; Mestrando em Ciências da Cidade pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR; • Ministra palestras, workshops e cursos com ênfase em patologia das fachadas prediais e inspeções prediais; Professor convidado da Pós-Graduação da Universidade de Fortaleza PÓS-UNIFOR no Curso de Gerenciamento de Obra – Patologia e Procedimentos Construtivos; • Responsável Técnico da Construtora Engeterra Ltda.; Consultor Técnico - Elabora trabalhos Laudos, Relatórios e Consultas em patologia das edificações com ênfase em sistemas de revestimento de fachada;  • Diretor Regional do Instituto de Engenharia de São Paulo; Ex-Diretor Técnico do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia do Ceará - IBAPE/CE - 2016-2019; • Conselheiro Regional do CREA-CE da Câmara Especializada de Engenharia Civil de 2016-2018 e 2019-2021; Membro da Comissão de Inspeção Predial do CREA-CE - 2018; Coordenador da Comissão de Ética Profissional - CEP do CREA-CE - 2020  • Maiores informações no site do CNPQ – Plataforma Lattes:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8508153D8