Em nossas empresas, dizem que as paredes construídas por nós têm fissuras, nas dos nossos amigos têm trincas e nas dos nossos concorrentes, rachaduras. Independentemente da terminologia que usarmos é fato que nos últimos anos essas manifestações patológicas têm cada vez aparecido com mais frequência em nossos edifícios e não tem sido possível evitá-las. Esse problema está atingindo proporções importantes e precisam ser encaradas pelo setor. Quem afirma hoje que não tem esse problema ou está tentando enganar o interlocutor ou não tem ido visitar as suas obras entregues.

O que tem causado o aumento dessas fissuras, esmagamentos e parte das quedas de revestimentos argamassados em nossas paredes? Essa é uma questão que precisa ser entendida e solucionada tendo como referência a evolução da maneira de se projetar e construir os edifícios. A meu ver, chegamos a um ponto crítico e sua solução requer a necessidade de um salto tecnológico ou a volta ao passado com importantes conseqüências econômicas.

De uma forma resumida, até meados do ano de 1923 as paredes desempenhavam uma dupla função: a de vedação e a de estrutura. Até essa época, a estruturação de um edifício dependia das paredes, que recebiam as cargas de vigas de madeiras ou metálicas que davam sustentação a um “Taboado” de madeira que tinha a função de laje de piso. O conjunto era contraventado no plano horizontal (pisos) com tirantes metálicos em diagonal, garantindo a estabilidade global do edifício contra forças horizontais.

Em meados de 1923 chegou ao Brasil a tecnologia recém descoberta do concreto armado e provocou uma verdadeira revolução na maneira de se projetar e construir. Essa revolução foi possível devido à separação da função vedação da função estrutura. As paredes passaram a desempenhar somente o papel de vedação e o reticulado (lajes, vigas e pilares) de concreto armado, a função estrutural. Isso possibilitou o aumento de vãos, a arquitetura diferente entre pavimentos bem como a possibilidade de reformas com modificações de posição das paredes em qualquer andar, independente dos demais, Possibilitou também o aumento do número de pavimentos e consequentemente a altura dos edifícios.

A evolução tecnológica das estruturas estava, a partir daquela data, definitivamente separada da evolução tecnológica das vedações. As estruturas seguiram num desenvolvimento vertiginoso assim como os demais sistemas dos edifícios, enquanto as vedações tiveram um desenvolvimento medíocre o qual não conseguiu responder as novas demandas de desempenho das novas estruturas.

Num primeiro momento as obras aconteceram sem grandes problemas. As novas estruturas tinham ainda vãos pequenos e suas deformações podiam ser absorvidas pelas alvenarias das paredes (não provocavam grandes tensões nas paredes). Até os anos 70 e parte dos 80 os vãos dificilmente ultrapassavam 5 metros, embaixo de cada parede era projetada uma viga e cada apartamento possuía uma vaga de garagem, raramente duas, não necessitando de grandes vãos. Os edifícios dificilmente possuíam mais de 15 pavimentos, o concreto era projetado com resistências baixas (150 a 180 Kgf/cm2). Além disso, os prazos de obra duravam de 24 a 28 meses.

Nesse cenário era rara a ocorrência de patologias devido à interface paredes-estrutura, pois as deformações impostas pela estrutura nas paredes ainda eram pequenas. Entretanto em paralelo, o concreto armado estava tendo uma enorme evolução nos projetos de pontes, com resistências cada vez maiores, método de cálculos cada vez mais precisos, gerando estruturas cada vez mais econômicas e esbeltas. Não tardou o uso dessa tecnologia na construção de edifícios, tornando as estruturas cada vez menos rígidas. As estruturas precisaram ficar menos rígidas para poderem desenvolver todo potencial da evolução dos materiais de maneira econômica.

Por sua vez as alvenarias pouco evoluíam, e mantendo-se praticamente inalteradas. O aumento da sua capacidade de receber deformações continuava muito pequeno. A democratização da computação eletrônica, com a disseminação dos microcomputadores nos escritórios de projetos estruturais possibilitou o uso de modelos matemáticos muito mais precisos que os de cálculo manual. Isso fez com que as estruturas pudessem ser dimensionadas de uma forma segura e muito mais econômicas, tendo a esbeltes como consequência inevitável. Essa evolução veio dar suporte as novas demandas da vida moderna. Os novos edifícios precisavam ter muito mais garagens, flexibilidade de lay-out interno sem o inconveniente de vigas aparecendo no teto dos ambientes, edifícios mais altos (30 a 40 pavimentos), construção mais rápida, etc.

O aumento da esbeltes tornou mais intenso o a fenômeno da “deformação lenta”, que eram deformações que aconteciam após a “deformação imediata” no concreto. Essa “deformação lenta”  acontecia devido à paulatina saída da água de amassamento do concreto, aprisionada no processo de endurecimento e que não se combinou na reação química com o cimento. O efeito dessa deformação aparece com mais intensidade nos 2 primeiros anos após a concretagem e praticamente fica com incremento imperceptível após os 5 anos. A magnitude dessa deformação pode chegar a ser 3 a 5 vezes maior do que a da deformação “instantânea” logo após a desforma. Todo esse novo efeito tornava a compatibilidade entre estrutura e vedação impossível de ser conseguida nesse novo conceito estrutural, apesar de todos os esforços e cuidados de se executar a alvenaria após a execução das estruturas.

Algumas práticas corretas usadas hoje de fixar a alvenaria na estrutura do andar mais alto para o mais baixo, usar argamassas mais resilientes (menos rígidas) no assentamento e na fixação das alvenarias e o uso de telas metálicas ou de fibra na interfase estrutura-vedação, ajudam, mas de longe não resolvem o problema. A realidade é que as vedações construídas em alvenaria são rígidas e incompatíveis com as estruturas modernas. Não existe tecnologia possível que venha tornar as alvenarias de vedação convencionais menos rígidas de maneira a poderem acompanhar as deformações estruturais.

A questão pode ser resumida em uma pergunta simples: devemos mudar totalmente a tecnologia construtiva das vedações, abandonando o uso de alvenaria, buscando processos e materiais que permitam aumentar muito sua resiliência ou devemos enrijecer as estruturas, tornando-as menos esbeltas, com vãos menores e com menor altura?

Essa questão tem a ver com a velha e popular citação: o cachorro é quem deve abanar o rabo ou o rabo é quem deve abanar o cachorro?

Para responder basta ver toda a trajetória de desenvolvimento tecnológico das principais partes do edifício. Nas últimas décadas houve avanço significativo em todas as partes: estrutura, fundações, sistemas elétricos, hidro-sanitários, esquadrias, etc. Entretanto um dos sistemas que evoluiu muito pouco ou quase nada foram as vedações e seus revestimentos argamassados.

Se olharmos a tecnologia de vedações com o uso de alvenaria de blocos (cerâmicos ou de concreto) de uma forma mais crítica, podemos concluir que a evolução foi pequena da Idade Média aos dias atuais. É uma tecnologia de data de 2.000 anos ou mais. As antigas argamassas de cal/areia deram lugar as atuais argamassas de cimento/cal/areia. Os blocos cerâmicos produzidos por antigas olarias deram lugar a blocos feitos em fábricas com fornos contínuos (algumas) ou blocos de concreto. Mas do ponto de vista sistêmico muito pouca coisa mudou. As paredes de alvenaria continuam rígidas e de baixa produtividade de execução. Continuam incompatíveis com os sistemas elétricos e hidráulicos que para serem acomodados em seu interior é necessário rompê-las em inúmeros rasgos, provocando sua fragilização e enormes retrabalhos de recomposição e perdas de materiais. Por todos os lados que possamos ver, o uso da alvenaria nas vedações parece ser anacrônico na execução de edifícios nos dias atuais.

Assim me parece claro na questão que o “rabo” é a alvenaria e o restante do edifício o “cachorro”. Não tem sentido voltar ao passado porque numa das partes do edifício a tecnologia é muito ultrapassada. Uma volta ao passado também significaria o não atendimento as atuais exigências dos nossos clientes inclusive com significativo aumento de custo de nossos edifícios.

O interessante é que já dispomos no Brasil de tecnologias alternativas que podem trazer as alvenarias ao mesmo estágio de desenvolvimento das demais partes do edifício, pelo menos para as paredes internas, o sistema Drywall. Além de possuir uma enorme capacidade de absorver deformações, possibilita a acomodação de eletrodutos e tubulações em seu interior, possui uma extraordinária precisão e produtividade em sua execução, 10 vezes menos pesada do que uma alvenaria equivalente (reduz o peso do edifício em mais de 20%), etc. É uma tecnologia que permite o projeto da parede para absorção de elevados níveis de ruído e alta energia de impacto. O Drywall pode ter melhor desempenho do que a alvenaria em todos os requisitos de qualidade, inclusive no que diz respeito ao custo (se for analisado economias em outras partes do edifício e sua enorme redução do prazo de obra). É a verdadeira “Parede de Engenharia” onde todos os requisitos de desempenho podem ser dimensionados.

Entretanto, um único item tem dificultado seu uso intensivo no Brasil, o som cavo ao toque (pois a parede é oca). Isso tem sido argumento do seu não uso por diversas construtoras e empresas de venda tradicionalistas. Muitas empresas tem feito uso desse som cavo para confundir o consumidor, utilizando-o de forma enganadora  de baixa qualidade, contra empresas concorrentes que passaram a utilizar. Isso me lembra a visita feita pelo presidente da US-Gypsun quando em visita ao Brasil há uns 20 anos atrás. Tentávamos explicar a ele o porquê da dificuldade da popularização do Drywall no Brasil devido ao som cavo na batida. Ele ouviu atentamente e então ele respondeu:

“Sim, muito interessante…, e bate pra que?”.