Em junho de 2019 a McKinsey publicou um relatório interessante sobre construção modular, intitulado: “Modular Construction: From Projects to Products” que aponta uma nova onda, destacando o forte aumento da atenção e dos investimentos, em várias das maiores economias mundiais.

Comparando a Indústria da Construção com os setores mais desenvolvidos da indústria, está mais do que evidente que há limitações relevantes para que a Construção Civil disponibilize produtos com padrão de produtividade, qualidade e desempenho equivalentes. Para superarmos este enorme incômodo, teremos que adotar melhores práticas de engenharia e projeto (design), explorando ao máximo os conceitos e ferramentas de pré-construção. São também essenciais o uso de conceitos e boas práticas de gerenciamento de projetos, conforme as diretrizes do Project Management Institute (PMI).

Estas mudanças precisam ser lideradas por profissionais experientes, integrando equipes de projeto colaborativas, competentes e multidisciplinares, que trabalhem em modelos BIM avançados, explorando, no mínimo, as dimensões 4D e 5D. Neste contexto, o uso mais amplo da tecnologia e a marcha firme para a condução do setor para a mecanização e industrialização são diretrizes óbvias, mas que têm sido negligenciadas ou descontinuadas pela fragmentação do setor, falta de escala decorrente da ineficiência de políticas que incentivem a produção e a industrialização e ainda, de linhas de crédito atrativas para o investimento em inovação.

Pesam ainda no cardápio de justificativas para a estagnação da Indústria da Construção, as barreiras culturais de consumidores que compram produtos do tipo Minha Casa Minha Vida e que ainda não conseguiram perceber qualidade e durabilidade em novos sistemas construtivos e, sobretudo, o “mindset” conservador de boa parte das lideranças setoriais.

O impacto da tecnologia e da industrialização

A evolução da tecnologia e das ferramentas digitais potencializou as vantagens propiciadas pela construção modular, facilitando e agilizando o projeto, a construção e a montagem dos módulos e produtos. Ganhos consideráveis também foram registrados na otimização da logística para a fabricação e montagem e nas ferramentas para o controle de processos e gestão de todo o ciclo de vida dos empreendimentos. Isso inclui concept design, desenvolvimento do projeto, planejamento, orçamento, fabricação (off-site), montagem (on-site) e pós-obra, podendo se estender ao apoio aos operadores, proprietários e usuários, na etapa de uso e manutenção.

Novas opções de materiais e componentes têm melhorado o desempenho e o impacto arquitetônico das edificações industrializadas, também projetadas para ser mais sustentáveis, gerando maior aderência dos consumidores. Por sua vez, estes passam a compreender os benefícios de adquirir um produto industrializado, com maior certeza do cumprimento de custos e prazos, com a vantagem de uma compressão do cronograma de construção, que pode chegar a 50%, se comparado com o de uma construção tradicional. Em uma escala de produção adequada, a construção modular também tem potencial para gerar economias de custo de até 20%, dependendo da competência das soluções de engenharia e projeto, dos materiais e componentes utilizados e ainda, da logística. Estes percentuais têm embasamento no mesmo relatório McKinsey anteriormente mencionado.

Se isso não bastasse, as edificações modulares industrializadas propiciam ganhos relevantes na vida útil das edificações, com custos menores de operação e manutenção. Outras vantagens possíveis, se o projeto for criterioso e bem planejado, são a redução do desperdício e geração de resíduos, assim como a redução do consumo de energia e de água. Isso gera economia relevante para o consumidor, já que o custo de uma edificação, ao longo do seu ciclo de vida, pode ser subdivido em apenas 15% para as etapas de projeto e construção e 85% para a etapa de uso e manutenção.

Ou seja, do ponto de vista financeiro, a economia possível, ao longo da vida útil de uma edificação modular bem projetada e construída, é substancial. O custo por metro quadrado, por ano de vida útil é significativamente inferior ao das edificações tradicionais. Uma meta desafiadora seria aliar alguns economistas, engenheiros e arquitetos para modelar esta equação, com o objetivo de extraírem da mesma resultados quantitativos. Certamente o impacto econômico e social gerado pela “sobra de caixa” resultante da mudança de modelo é elevado. A economia obtida poderia ser investida para a geração de maior riqueza e a melhora do bem-estar social, em programas estruturados, voltados para a educação, moradia e saúde.

Vantagens e benefícios da construção modular

De forma resumida, alguns benefícios e vantagens claros da construção modular são:

  • Compactação dos prazos de construção de até 50% (projeto, fabricação e montagem);
  • Maior previsibilidade nos custos e potencial redução de até 20% do custo global;
  • Atividades realizadas por baixo número de profissionais especializados (versus grande contingente de mão de obra direta, na construção tradicional);
  • Processos padronizados, gestão simplificada e maior controle do projeto e da construção (fabricação e montagem);
  • Melhora da qualidade, da durabilidade e do desempenho das edificações;
  • Produção de edificações mais eficazes, com menor consumo de energia e água e mais sustentáveis;
  • Redução de riscos, desperdícios e do retrabalho;
  • Redução dos custos de operação e manutenção.

Conclusões

Nos EUA, Japão, China, países escandinavos e em parte da Europa, a recente aceleração e o ganho de volume nos negócios em construção modular, são fortes indicadores de que o caminho para a industrialização da construção e para a construção modular está mais maduro, mudando de patamar e atingirá nos próximos anos volumes mais representativos. Este ganho de escala se dará substituindo, gradualmente, boa parte do volume de construções tradicionais. Isso é de grande importância já que a escala é que permite potencializar as vantagens deste tipo de operação, através dos benefícios reais gerados na redução do custo e nos ganhos de qualidade, desempenho e produtividade.

Apesar do seu elevado potencial, lamentavelmente a construção modular ainda não é um negócio com massa crítica relevante no Brasil. Há boas iniciativas em andamento. Novos players estão se especializando na fabricação de componentes e no projeto, fabricação e montagem de produtos, entendendo o potencial e os benefícios proporcionados. Contudo, há cuidados e detalhes importantes que precisam ser minuciosamente estudados, de acordo com uma visão holística e sistêmica, tais como: a implementação de soluções inteligentes para a racionalização e otimização dos projetos, a escolha adequada de materiais e componentes e a gestão do supply chain.

Outro ponto de grande relevância é o desenvolvimento do projeto integrando as diversas especialidades, através de profissionais competentes e multidisciplinares, explorando softwares e ferramentas BIM, para gerar um modelo tridimensional único e eficaz. Este trabalho, deve ser realizado de maneira colaborativa e num nível de detalhe (LOD) avançado, com o raciocínio voltado para a lógica de como os módulos deverão ser fabricados, transportados e montados. Agilizar etapas, eliminar interfaces e encontrar a combinação certa de elementos que permitam rapidez e eficácia ao longo deste processo são fundamentais. Ações deste tipo, avançando para o conceito de Integrated Project Delivery (IPD), serão essenciais para o desenvolvimento de projetos mais complexos, em prazos mais curtos. Apoiar esta tendência, ingressando neste “trem” é uma decisão sábia, para que o mundo da construção mude de patamar e possamos, de fato, merecer a classificação de “Indústria” da Construção.