Este relatório é na verdade a revisão de um documento anterior e avalia a indústria da construção atual e olhando para o futuro, de forma análoga a um processo médico, ou seja:

  • Identificar os sintomas dos problemas
  • Diagnosticar as causas-raiz
  • Efetuar o prognóstico
  • Estabelecer o plano de tratamento
  • Manter a indústria da construção sob observação

Sintomas

Embora situado no contexto do Reino Unido, a leitura deste documento é mais do que recomendada já que parte de sintomas idênticos aos do contexto brasileiro, que tomo a liberdade de reproduzir na figura abaixo:

Fonte: The Farmer Review of the UK Construction Labour Model – Modernise or Die, Mark Farmer (Construction Leadership Council – CLC)

O autor afirma que a comparação com um processo médico é apropriada, já que o documento conclui que, lamentavelmente, muitas das características da indústria da construção se enquadram no mesmo contexto de uma pessoa doente ou até de um paciente moribundo.

Diagnóstico

Resumidamente, como causas-raiz, o relatório aponta que:

  1. A indústria da construção evoluiu de acordo com uma estrutura que busca apenas a sobrevivência e de acordo com um conjunto de comportamentos comerciais no ambiente em que opera, caracterizado por baixos níveis de capitalização, de investimento e demanda cíclica.
  2. A indústria da construção e seus clientes têm interesses não alinhados reforçados através de protocolos tradicionais de compra e de uma profunda resistência à mudança.
  3. Não existem incentivos estratégicos ou uma estrutura apropriada para superar os problemas mencionados e iniciar transformações, em grande escala, para produzir uma mudança mais profunda e abrangente.

Prognóstico

Como prognóstico, conclui-se que a indústria da construção e seu modelo de trabalho estão em um momento crítico, considerando a sua saúde a longo prazo. Portanto, é hora de revisar com seriedade as perspectivas futuras.

As conclusões e recomendações para a solução dos problemas apresentados e para a transformação e modernização da indústria da construção, não são diferentes das diretrizes que temos disseminado, quais sejam:

  • Integrar a cadeia de valor, através de modelos colaborativos e projetos inteligentes, com uso de tecnologia e processos BIM, explorando ferramentas de pré-construção para buscar a máxima eficácia, qualidade, desempenho e produtividade;
  • Estabelecer programas setoriais estruturados para a capacitação, desenvolvimento e retenção de mão de obra;
  • Melhorar o relacionamento da cadeia de valor e entre clientes, instituições e governo, fomentando iniciativas de Pesquisa & Desenvolvimento voltadas para a industrialização, para a pré-fabricação e para a construção modular;
  • Explorar a experiência do meio acadêmico, acelerando a industrialização e a inovação, incentivando o máximo uso de tecnologia nos processos de fabricação, com prioridade para programas de construção residencial, em larga escala;
  • Estabelecer linhas de crédito e de financiamento para o desenvolvimento de habilidades e de sistemas de treinamento, ajustados com as necessidades que serão exigidas pelo setor, num futuro próximo, modernizado e digital;
  • Desenvolver modelos de negócios e de estruturas contratuais apropriadas e alinhadas com as necessidades futuras;
  • Aparelhar e preparar o governo e as instituições para compreender e se inserir em um processo holístico do “ambiente construído”, do qual a indústria da construção é parte, promovendo um programa de divulgação para as escolas, cursos profissionalizantes e universidades, apresentando a visão para o futuro do setor, a partir da indústria do estágio atual da indústria da construção;
  • Acionar o governo, em todas as instâncias, para que assuma a sua responsabilidade nesta questão de forma a:

– Confirmar o seu compromisso, de forma análoga à do Reino Unido, para que o país possa ter uma base industrial forte, estratégica e competitiva na indústria da construção;

– Reconhecer o valor e a relevância setorial, intervindo através de programas de educação complementares apropriados, no planejamento e estabelecimento de políticas tributárias e de geração de emprego adequadas, para estabelecer e desenvolver as competências e habilidades críticas para o sucesso e para a competitividade da indústria da construção, no cenário futuro global;

– Estimular a inovação no setor habitacional, promovendo o uso de soluções industrializadas por meio de medidas políticas, promovendo e valorizando a expansão do uso de construções de interesse social modulares e industrializadas.

Conclusões

Apesar do contexto bastante diferente, as semelhanças são notáveis no comportamento da indústria da construção entre o Reino Unido e o Brasil, seja no diagnóstico atual ou mesmo no caminho da sua transformação, adotando diretrizes eficazes para a construção do futuro.

Há problemas sérios a serem enfrentados, que precisam ganhar relevância estratégica estrutural, na esfera do governo brasileiro, para que o próprio setor possa se modernizar e se fortalecer, uma vez reconhecida a sua relevância na composição do PIB nacional e na geração de emprego, inserindo-se definitivamente no universo digital e devolvendo ao país, através de serviços e produtos de maior qualidade e desempenho, produzidos competitivamente e de forma eficaz, que gerem, ao longo do seu ciclo de vida, menor custo de construção, uso e manutenção.

As limitações e fragilidades apontadas são um alerta importante para toda a cadeia de valor da indústria da construção e para o país. A questão merece uma reflexão profunda e um planejamento estratégico para desenharmos o futuro e um plano de ação contundente e eficaz, transformando as fragilidades, riscos e ameaças identificados em oportunidades de negócios de potencial expressivo no mercado futuro.