Nova frente de trabalho. Operários da Engeform trabalham na rede de saneamento de Cariacica, no ES: empresa aumento contratações em mais de 30% Foto: Bruno Lopes / Agência O Globo.

Glauce Cavalcanti e Julia Noia, O Globo. Enquanto o mercado de trabalho reage lentamente, canteiros de obras abrem vagas. O total de trabalhadores formalizados na construção civil já supera o patamar pré-pandemia.

Alcançou 2,48 milhões de trabalhadores com carteira assinada em julho, avanço de 12,7% sobre o registrado no início de 2020.

Somente entre janeiro e julho deste ano, foram criados 208 mil empregos no setor, melhor resultado desde 2012, considerando dados do Ministério da Economia.

A construção se mostra um dos raros motores da ainda limitada redução da taxa de desemprego. No trimestre encerrado em junho, ficou em 14,1% (14,4 milhões de desempregados), segundo o IBGE, recuando dos 14,4% dos três meses terminados em março.

A principal fonte do crescimento da construção é o imobiliário residencial, com a retomada forte de lançamentos e vendas. Mas perto de 30% das vagas do setor estão em obras de infraestrutura, com destaque para o saneamento básico, com os investimentos privados das concessões viabilizadas pelo novo marco regulatório, aprovado em 2020.

O esforço para universalizar água e esgoto no país até 2033 deve gerar 6,2 milhões de empregos diretos no país, segundo a Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), ao longo dos contratos firmados a partir do segundo semestre de 2020.

Haverá outros 2,9 milhões de empregos indiretos em setores como o de equipamentos. É um impacto de longo prazo, observa Percy Sores Neto, diretor executivo da Abcon:

— Nos serviços de saneamento, diferentemente da construção de uma hidrelétrica, por exemplo, o investimento é muito forte nos oito primeiros anos, em média. Mas não acaba. A população cresce e é preciso ampliar a rede e os empregos na operação.

Capacitação interna

Atualmente, são quase 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada e cem milhões sem coleta de esgoto. Nos cálculos do BNDES, que estruturou os quatro leilões se saneamento já realizados sob o novo marco — em Alagoas, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Amapá —, esses novos contratos vão abrir, logo de saída, 15,2 mil empregos diretos. Cada um puxa dois ou três indiretos.

— Nos projetos, mantivemos a estabilidade de investimento por dez a 15 anos. Haverá curvas de crescimento e, depois, seguirá por anos nesse platô de vagas — pontua Fábio Abrahão, diretor de Concessões do BNDES. — O setor é uma máquina de gerar emprego em quantidade, descentralizado e com perenidade.

As oportunidades surgem para operários e profissionais qualificados. A BRK Ambiental, por exemplo, fez 880 contratações entre janeiro e julho. Só na Região Metropolitana de Maceió, onde levou a concessão do bloco 1 de serviços da Casal, companhia de saneamento de Alagoas, foram 500 admitidos. Com o alto desemprego, a procura é grande.

— Temos mais de 18 mil currículos cadastrados para essa operação. Ao todo, serão 1.500 empregos este ano. Em 2022, sobe a 2.100 e, em 2023, para 2.700. Perto de 40 vagas foram preenchidas com recrutamento interno, a maioria para cargos de gerência — conta Lívia Borela, diretora de RH da empresa. — E oferecemos cursos para qualificação, com critérios de diversidade, seleção de mulheres e refugiados.

A contadora Paula Sartini foi promovida ao cargo de Diretora de Planejamento e Análise Financeira na BRK e está entre os selecionados para o MBA em saneamento que a empresa vai oferecer internamente em parceria com a FGV.

— A formação vai passar pelas partes regulatória e técnica, não fica apenas em finanças. Terei a oportunidade de entender o saneamento como um todo. Vai me ajudar a crescer aqui — diz ela.

— Eu estou muito feliz porque há uma carência muito grande de empregos na área da engenharia. Muitos estão ansiosos pela abertura de vagas.

A Águas do Rio, concessionária do grupo Aegea que levou dois dos quatro blocos de serviços da Cedae no Rio — cobrindo 124 bairros da capital e 26 municípios fluminenses — já recebeu 90 mil currículos.

— A operação começa com perto de cinco mil profissionais diretos, com a meta de ter 3 mil deles de comunidades de baixa renda. Já no primeiro ano, isso deve gerar 15 mil empregos indiretos, sendo 95% na construção, pela quantidade de obras necessárias, incluindo a recuperação de estruturas — diz Alexandre Bianchini, à frente da concessionária.

16 mil currículos por mês

A empresa fechou uma parceria com a Faetec, via governo do Estado do Rio, para formar polos de qualificação para o setor em funções como as de encanador hidráulico e técnico eletromecânico com cursos de dois meses, em média.

Já a Iguá, que levou o bloco da Cedae que reúne a Barra da Tijuca e outros bairros da Zona Oeste do Rio, além de Paty do Alferes e Miguel Pereira, prevê duas mil vagas e já recebe 16 mil currículos por mês.

O aquecimento da construção permitiu à Engeform Engenharia conquistar sete obras em 2021, três contratadas por empresas de saneamento. Ampliou em 33% o número de colaboradores, para três mil. Em 2022, a empresa espera contratar mais mil e duplicar o faturamento na comparação com este ano, em que já houve crescimento de 50%.

A empresa vai atuar em obras da Iguá, no Rio, e já toca projetos da nova concessão de saneamento em Cariacica, no Espírito Santo. Há um mês no canteiro de obras capixaba, a engenheira Gisele Takeda encontrou ali a oportunidade que buscava há seis meses:

— É muito gratificante fazer uma obra como essa, em um local desassistido, e ver que a pessoa fica feliz porque tem água, uma condição mínima.

Construção emprega, mas inflação e juros são risco

A construção civil  crescer 4% este ano, estima a Cbic, que reúne a indústria do setor. As incorporadoras devem fechar o ano com 40% mais lançamentos e alta de 30% nas vendas de imóveis novos, na comparação com 2020, segundo a Abrainc, representante dessas empresas.

São quatro empregos para cada 100 metros quadrados residenciais construídos, estima a Cbic. Mas José Carlos Martins, à frente da entidade, vê dois freios a esse desempenho.

Para ele, 2021 começou com um “sorrisão” para a construção civil: carteira grande de obras públicas, mercado imobiliário pronto para repor estoque. Mas, desde setembro de 2020, há problemas na oferta de insumos, o que fez as empresas puxarem o freio de mão no primeiro trimestre deste ano, mesmo com vendas em alta.

Preços de materiais de construção estão entre os que mais pressionam a inflação, o que provoca a alta dos juros básicos pelo Banco Central, encarecendo o crédito imobiliário.

O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), medido pela FGV, acumula alta superior a 17% nos 12 meses terminados em agosto. A taxa que corresponde a materiais, equipamentos e serviços saltou 34,18% no período.

Já a taxa básica de juros (Selic), que está em 5,25%, tem a previsão de subir em um ponto percentual esta semana, para 6,25%.

Na semana passada, a Caixa anunciou redução de juros no crédito imobiliário, mas só na modalidade atrelada à poupança. A taxa vai cair de 3,95% para 2,95% ao ano mais o rendimento da caderneta a partir de 18 de outubro. Mas vai na contramão dos demais bancos, que elevaram suas taxas.

— Traz uma preocupação futura, de que venha um descasamento entre a capacidade de compra das famílias e o valor dos imóveis diante dos custos. Na moradia popular, as pessoas não têm como apertar mais o cinto. O segmento, que puxa o setor, viu suas vendas encolherem dentro do total do primeiro para o segundo trimestre — destacou Martins, avaliando que os ajustes recentes feitos pelo governo no Casa Verde e Amarela vão ajudar.

O setor é uma “Ferrari com freio de mão puxado”, diz ele:

— Abrimos o ano com geração de 44 mil vagas por mês, em janeiro e fevereiro, em média. A partir de março, caiu a cerca de 22 mil.

Crescimento nas duas pontas

Na construção de imóveis residenciais, crescem as duas pontas: a moradia popular, o segmento mais resiliente, e o alto padrão.

Rafael Menin, presidente da MRV, especializada no segmento econômico, informa que a empresa contratou 3.500 pessoas este ano, alcançando 30 mil colaboradores, a maior parte em vagas diretas.

Ele explica que os anos de 2014 a 2016 foram muito difíceis para o setor em geral, que é muito dependente do crédito, pelo taxa de juros alta e a recessão impactando o poder de compra do consumidor.

A recuperação começou gradualmente em 2018 e aqueceu forte em meados de 2020. Mas ele reconhece que, este ano, houve uma leve queda no setor de imóveis populares de abril a junho.

No outro extremo, a RJZ Cyrela, avança no alto padrão no Rio. Entre o início deste ano e fevereiro de 2022, vai bater R$ 1,3 bilhão em valor de vendas de novos projetos na cidade, conta Carlos Bandeira, diretor de incorporação da empresa.

Ele destaca que, mesmo na Barra da Tijuca, onde houve uma superconcentração de oferta antes da recessão, os lançamentos foram retomados. Para ele, a taxa de juros ainda não impacta o setor porque o valor dos imóveis não voltou ao patamar de 2014.

— De julho de 2020 para cá, fizemos três lançamentos de quatro grandes incorporações que faremos na região do Golfe Olímpico, na Barra. O Latitud, o primeiro deles, foi lançado com o metro quadrado a R$ 11.500, chegando perto de R$ 113 mil agora. Nosso último lançamento no bairro antes da crise, em 2014, na Península, tinha o metro quadrado a R$ 14.500 — pondera ele.