De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 54,8% das empresas do setor de construção enfrentaram, na segunda quinzena de agosto, alguma dificuldade para acessar insumos, matérias primas ou mercadorias.

Por Nicola Pamplona, Folha de São Paulo. A construtora Apex Engenharia previa concluir em dezembro as obras de um projeto de moradia para baixa renda nas imediações de Brasília, mas foi surpreendida ao fazer a encomenda das louças sanitárias para os 232 apartamentos. Ao invés do prazo normal de dois a três meses, o fornecedor disse que só conseguirá entregar o lote em janeiro.

“Vamos ter que atrasar todo o procedimento da obra”, diz o diretor da empresa Eduardo Aroeira, que teve ainda que inverter o fluxo do projeto para driblar dificuldades também para encontrar ralos de PVC para os banheiros, outro produto escasso no mercado.

Os problemas enfrentados pela Arpex são hoje comuns a muitas construtoras e resultam de uma mistura entre parada nas fábricas durante o pico da pandemia e explosão na demanda por materiais de construção, tanto para pequenos reparos quanto por grandes empreendimentos.

O desequilíbrio entre oferta e demanda no setor provocaram uma disparada nos preços, que levou o governo a incluir os materiais de construção no esforço para investigar pressões inflacionárias provocadas pela pandemia, como a que vem encarecendo a cesta básica.

Aroeira diz que fez o pedido das louças há duas semanas, respeitando um prazo que costuma usar nesse tipo de encomenda. Mas o fornecedor lhe afirmou que não tinha condições de atender toda a demanda. “A obra vai ser atrasada em, no mínimo, um mês”, lamenta.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 54,8% das empresas do setor de construção enfrentaram, na segunda quinzena de agosto, alguma dificuldade para acessar insumos, matérias primas ou mercadorias.

É um número praticamente estável em relação aos 56,7% da primeira quinzena do mês e bem superior aos cerca de um terço verificados em períodos anteriores. O setor aponta maiores dificuldades em louças e sanitários, PVC, produtos de cobre, aço e cimento.

“Na pandemia, em todo o mundo, os fabricantes reduziram produção e queimaram estoques para fazer caixa”, diz o presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), José Carlos Martins. Ele avalia, porém, que a indústria brasileira demorou a reagir ao aumento da demanda após o pico da crise.

Além dos atrasos, afirma Martins, o cenário provoca encarecimento das obras. Segundo o IBGE, a inflação da construção civil medida pelo IBGE saltou de 3,33% em julho para 3,78% em agosto. O setor é um dos que vem puxando a retomada do comércio e da indústria nos últimos meses.

Aroeira lembra que as obras imobiliárias não pararam durante a crise e, com os juros mais baixos, o mercado imobiliário está aquecido.

Mas há também efeitos no varejo de materiais de construção, que vem tendo dificuldades de repor estoques para dar conta do incremento das pequenas reformas ou reparos feitos pelo brasileiro que passou a ficar mais tempo em casa.

​”A casa deixou de ser um lugar onde você só dorme. Acabou se tornando local de trabalho e lazer”, diz o consultor Wanderson Leite, da Prospecta Obras. “Aquele cômodo que estava largado foi reformado para virar um escritório, aquela churrasqueira que estava meio capenga, acabou sendo reformada.”

Leite diz que pesquisa feita pela consultoria indica que o número de projetos de reformas autorizados por prefeituras subiu 37% na segunda quinzena de agosto, em comparação a julho. O aquecimento é percebido desde o início da pandemia e também tem impulso do auxílio emergencial pago pelo governo.

A dificuldade na reposição de estoques aflige o varejo brasileiro como um todo. Segundo o IBGE, 78,5% das empresas do comércio varejista no Brasil relataram o problema na segunda quinzena de agosto. Além da construção, o setor de automóveis e peças também superou os 50% de reclamações sobre o tema.

Na semana passada, empresários relataram à Folha atrasos em entregas, falta de produtos e aumento de preços. O problema afeta principalmente pequenas empresas, já que as grandes cadeias varejistas costumam ter mais força nas negociações com a indústria.

“Não há milagre a fazer quando se desorganiza toda a cadeia de produção”, diz o superintendente da Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção), Waldir Abreu. “A indústria paralisou por um período e, quando começou a retomar, viu que matéria prima está ou escassa ou muito demandada.”

Ele é diz que a reposição de estoques é um problema menor para o varejo, que tem a opção de repor seus estoques em grandes redes atacadistas, e é mais localizado, mas que espera regularização em breve. “Em alguns lugares vai ter mais ruptura do que outras e isso se regulariza em 60 dias”, diz.

Abreu defende ainda que os comerciantes do setor não conseguem segurar a alta de preços. Para o consultor Wanderson Leite, o consumidor pode esperar novos aumentos antes que os preços comecem a ceder. “Acreditamos que no início do ano que vem a situação estará normalizada”, afirma.

Os construtores, porém, ainda esperam impactos​ mais profundos. Martins, da CBIC, diz que há hoje obras paralisadas por falta de aço. Aroeira diz que o preço do produto subiu mais de 30% na região de Brasília, o que eleva a pressão também sobre o custo

“Essa obra que estou terminando não me preocupa tanto, porque já comprei quase tudo”, diz ele. “O problema é uma obra que começa daqui a dois meses, porque não sei se vão vender aço para mim.”