Businessman swallowed by black hole of money

Achei estranha a placa da construtora. “Estão fazendo este tipo de obra também?” Perguntei a mim mesmo, achando estranha a soma de mais esta complexa especialidade de varejo no já vasto portfólio da respeitada empresa.

Não que eu ache errado. Ao contrário. Sou entusiasta da capacidade empreendedora das pessoas e vibro com o sucesso de quem ousa. Mas tem coisa que não orna. Dão dá liga. Não combina. E este me pareceu o caso.

Assisti a arrancada inaugural acelerada da obra, a marcha em ritmo constante de quem domina a arte de construir, a queda da velocidade de quem tem problemas, a frenada brusca, e a total paralisação do empreendimento, frustrando a esperança do cliente inaugurar para o Natal.

Não foi erro de orçamento. Quem é do ramo e constrói, sabe quanto custa tudo. Quem é do ramo e contrata, sabe mais ainda. Principalmente quando falamos de uma obra daquele porte. Portanto, erro de orçamento não foi.

Também não foi erro de engenharia. Lá está e se vê uma estrutura rica com promessa de segurança, conforto e beleza. E os profissionais envolvidos pelo contratante e contratado são de comprovada experiência. Nem pensar em erro de engenharia.

Aconteceu é que alguém planejou e propôs algo que não conseguiu realizar e outro alguém contratou errado, acreditando em vantagem financeira. Não existe outro argumento tão puro e objetivo, mas nas corporações o processo de manobra para assimilar, digerir e concluir um acidente desta envergadura toma o tempo que se leva para construir outra obra.

Sistemas sofisticados de gestão são capazes de impedir contratações emocionalizadas, perdedoras como esta? Não, não são. Nada no mundo tem força tão grande para influenciar o homem do que o preço baixo. Sempre foi assim, se insere em um dos sete pecados capitais e sempre será assim mesmo.

Na verdade, o fato da paralisação da obra só reflete esta face dinheirista cega e burra que nossa sociedade nos imprime. Os departamentos de compras existem para captar os melhores preços e oportunidades; as empresas são avaliadas pelos seus potenciais presente e futuro de crescimento financeiro.

E no final, tudo se resolve conforme a conveniência do valor da última célula da última coluna à direita. Preço, vantagem, lucro, ou qualquer sinônimo que se adotem! A realidade é assim e será assim mesmo.

Mas, apesar de tudo isso, os projetos prosperam como regra, mostrando a capacidade do homem introduzir conhecimento para contornar as barreiras de comportamento ou de cultura do próprio homem. Nestes projetos vitoriosos, a vontade de ganhar é limitada em baixos riscos, e as decisões incluem mais os valores da experiência e da especialização.

Em nossas obras, eu insisto para que, ao comprar serviços, já se tenha definido quem será o contratado. O preço será o parâmetro a ser ajustado com base no mercado.

E assim, pessoas disponíveis e com maior potencial de conhecimento passam a compor a equipe de engenharia da obra, encarregada das difíceis decisões do dia a dia. São reforços que sem custo complementar passamos a ter ao nosso lado. Nesta condição, a gestão fica mais embasada e robusta; menos monocrática e emocionalizada; mais racional e lógica.

Comprar é escolher. Igual sempre foi para todas as pessoas. E exatamente porque a compra é técnica e os predicados dos serviços não são tangíveis, é que o risco do erro aumenta. A alocação de experiência e conhecimento dos colegas da equipe impõe contrapartidas seguras para minimizar a exposição às incertezas.

Obras como a do meu vizinho existem por um capricho probabilístico que aproxima alguém com a vontade maior do que a capacidade de realizar, com outro alguém com a vontade maior do que o medo. Não tem inocente. Só equivocados e perdedores.

Em menor escala, eu vejo estas decisões equivocadas todos os dias nas obras. Como se restringem ao nível operacional, acidentes desta ordem não ocorrem, mas as consequências no cronograma e no custo são dolorosas. E quer saber de uma coisa? Poucos percebem!

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Consultor de concreto na PETRONILHO & ENGENHEIROS ASSOCIADOS Petronilho tem uma vida inteira dedicada à tecnologia do concreto e à viabilidade de suas aplicações. Com uma equipe de engenheiros altamente especializados na disciplina, atua como consultor no mercado urbano de edificações, nas obras industriais e de infra-estrutura no Brasil, e dedica especial atenção aos projetos em concreto arquitetônico em diversos países. Foi um dos pioneiros no manejo de grandes volumes de concreto massa refrigerado no Brasil, com a construção de barragens e portos. Na última década tem se dedicado ao estudo, divulgação e emprego do concreto durável, cuja expectativa de vida saudável, sem patologia, chega aos 100 anos. O foco do trabalho é a viabilização financeira do empreendimento com o uso da inovação na construção. Consultor de tecnologia do concreto; consultor de engenharia, portos, aeroportos, grandes projetos de arquitetura, concreto gelado, concreto impermeável, concreto anti-radioativo, ressonância magnética, concreto sub-aquático, sistemas construtivos.