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O papel da arquitetura sustentável na crise energética

A arquitetura sustentável, com sua expressão na eficiência energética, está virando uma obrigação de atendimento nas edificações para mitigar a crise climática

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Durante a COP-26 (Conferência Mundial pelo Clima) que aconteceu em Glasgow, Escócia, foram discutidas as políticas e compromissos globais para conter o aquecimento global em 1.5°C, chegando a alguns acordos, mais os menos bem sucedidos, dependendo da perspectiva ambientalista que seja adotada, mas ficando evidente o fato de que os padrões climáticos estão cada mais aleatórios e imprevisíveis, tanto no frio como no calor extremos, devido às ações humanas ou antropogênicas.

Dentro desse cenário, a indústria da construção está tendo que assumir uma nova condição e se adaptar rapidamente tanto na forma de projetar novas edificações, como para reformar as existentes e projetar um novo tipo de urbanismo pós-pandêmico nas áreas de maior impacto climático.

Tudo isso está inserido dentro de um processo de transição energética mundial para uma economia verde, onde a sustentabilidade já é uma obrigação para todas as esferas produtivas, sendo um imperativo para os agentes envolvidos na cadeia produtiva da indústria da construção. Nesse contexto, podemos indicar que a eficiência energética nas edificações vai ter um papel muito importante para evitar uma catástrofe planetária.

Não seria um exagero afirmar que aEficiência Energética vai contribuir fortemente para salvar o planeta, tal como indicam as previsões do Cenário Ponte 2030 (Agenda da ONU para o Desenvolvimento Sustentável). Uma das medidas mais relevantes será o incremento nas exigências dos estândares de Desempenho Energético Mínimo em Edificações, Transporte e Indústria representando 49% do potencial de redução das emissões de carbono (Gt CO2-eq), além do investimento em energias renováveis (17%), o “upstream” das emissões de metano (15%), a reforma dos impostos aos combustíveis fósseis (10%) e a redução do carvão ineficiente (9%).

O Brasil que é um país com tanta abundância de recursos naturais de todo tipo e, em especial, de energia limpa e relativamente barata comparado com outros países, apresenta um paradoxo, porque apesar de tanta riqueza natural não houve uma grande consciência de economia e uso racional da energia/água até algumas poucas décadas atrás, mas devido ao impacto das mudanças climáticas e a outros fatores, essa situação mudou drasticamente.

Atualmente, há consciência do perigo de um racionamento elétrico, evento que não acontecia desde 2001. Um dos elementos chaves, para entender essa brusca mudança nos padrões hídricos e energéticos que vem afetando o país, é a intervenção direta das ações humanas, tais como as queimadas na Amazônia e outras regiões, situação que produz uma aceleração do desmatamento e do processo de desertificação, aumentando as emissões de CO2, na contramão do mundo, e, consequentemente, alterando os padrões climáticos do país e da região.

Medidas de mitigação por meio da arquitetura sustentável

Para fazer frente a toda essa tragédia ambiental, os profissionais da arquitetura e engenharia podem implementar algumas medidas preventivas e/ou corretivas de caráter prático para mitigar os efeitos de um possível racionamento ou escassez energética tais como:

Desde a etapa inicial (design conceitual) dos projetos se faz necessário que os todos os projetos de arquitetura, civil, hidráulica, elétrica, iluminação, ar-condicionado, energias renováveis e outros, já saiam dos escritórios com todas as especificações necessárias para ser as mais eficientes e sustentáveis possíveis, tanto em desempenho ambiental como energético para, idealmente, virar Edifícios de Alto Desempenho (High Performance Buildings).

Essa realidade ainda está longe de ser uma situação comum entre os escritórios de projetos, principalmente, porque a formação e a prática profissional da maioria dos envolvidos na indústria da construção não favoreceu o conhecimento técnico específico, nem a obrigatoriedade de se enfrentar esse tipo de soluções técnicas e construtivas. Na maioria das ocasiões em que os projetos apresentam características ambientalmente destacáveis, estamos falando de edifícios com certificações Green Building, onde por trás existe um forte interesse comercial e de marketing das empresas solicitantes, as quais, na maioria das vezes, se comprometem com reduções de emissões, mas, na prática, não sabem exatamente como atingi-las.

Novo normal

Por outra parte as Certificações viraram um standard em determinadas áreas do mercado imobiliário como, por exemplo, nos escritórios de alto padrão das principais cidades do mundo, onde é quase uma obrigação implícita certificar ambientalmente esse tipo de edifícios para ter competitividade comercial no segmento.

Há mais de 18 anos venho acompanhando a evolução do mercado internacional, o qual vem evoluindo e melhorando devido, em parte, à introdução de regulações normativas obrigatórias e à massificação das certificações ambientais, que tendem a elevar a régua do desempenho ambiental na indústria como um todo, num processo de sinergia onde os prédios “verdes” começam a se destacar pelos seus atributos, tais como, conforto ambiental, eficiência energética, qualidade interna do ar, materiais sustentáveis, entre outras qualidades benéficas tanto para o planeta como para o bolso dos investidores.

O efeito multiplicador de boas práticas que as certificações como LEED, AQUA-HQE, GBC Brasil CASA/CONDOMÍNIO etc. tiveram nos últimos 10 anos no Brasil merece ser destacado, superando os obstáculos próprios das práticas “tradicionais” de arquitetura e engenharia, e, atualmente, a maioria dos profissionais atuantes nas áreas de arquitetura comercial, industrial e de serviços em geral já teve contato ou trabalhou diretamente com projetos de características sustentáveis.

Em razão da diversificação de certificações ambientais, uma situação em particular imprime bem essa mudança de mercado: a taxa de vacância dos prédios verdes/eficientes na área comercial e de escritórios corporativos versus os edifícios “padrão” de mercado é, consideravelmente, menor e o nível de satisfação dos ocupantes é considerado maior, o que se traduz em melhores oportunidades de negócios para os proprietários dos edifícios.

Nesse cenário hídrico e energético atual, muitos proprietários e administradores de condomínios comerciais e residenciais estão procurando segurança e autonomia energética, tal como acontece com instalações de datacenters e operações de missão crítica, onde o fornecimento de energia elétrica nunca pode parar e sempre deve haver um “backup” ou respaldo, dessa forma, a Arquitetura Sustentável de alto desempenho pode servir de exemplo para orientar as decisões e escolhas de tecnologias “verdes” que permitam resolver de melhor forma as demandas energéticas e hídricas das edificações.

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Arquiteto pela Universidad de Chile e Master of Design Science, Sustainable Design pela University of Sydney. Diretor da PHS Eficiência Energética. Na Austrália, trabalhou para Cox Architecture desenvolvendo projetos sustentáveis em países tropicais (Malásia, Índia, Vietnã e Cingapura) e elaborou o Manual ESD (Ecollogically Sustainable Development). No Chile, trabalhou para os maiores escritórios de arquitetura do pais, desenvolveu Bases Técnicas de Eficiência Energética para o Governo, foi professor da Universidade do Chile e colaborador da Revista CA (Colegio de Arquitectos). No Brasil, foi o primeiro instrutor certificado do software de simulação de Energia da Autodesk, e desde 2011 vem dando cursos e palestras sobre o energia e sustentabilidade para universidades como FAAP, Mackenzie, Unicid e outras instituições privadas. Foi presidente do Comitê de Energia e Atmosfera para o Referencial CASA/Condomínio do GBC Brasil e colaborador da Certificação Zero Energy. Trabalhou para empresas multinacionais implementando Programas de Eficiência Energética para edifícios existentes (Operação e Manutenção) melhorando o desempenho energético-ambiental dos sistemas prediais. Fundou em 2017 a PHS Eficiência Energética, empresa especializada em Eficiência Energética, Conforto Ambiental, Simulações computacionais e Edifícios Zero Net Energy. Atualmente é Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie com a matéria de Eficiência Energética para Edificações.

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