No Brasil, recentemente o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) vem destacando a importância dos espaços da Saúde e alertando sobre as mudanças vindas em decorrência da pandemia, situação especialmente crítica no contexto social e econômico do país.

O que, nas últimas décadas, surge como Arquitetura Sustentável (Ecológica, Green Buildings), é basicamente um grande conjunto de projetos que envolve uma série de disciplinas científicas tais como a termodinâmica, biologia, climatologia, física, para produzir edifícios de alto desempenho ambiental e energético.

Arquitetura Verde, “Eco-friendly”, que respeita o meio ambiente, que consome pouca energia (ou que gera a própria), que reduz o consumo de água, que utiliza materiais “ecológicos”, que promove o bem-estar dos ocupantes e que maximiza a qualidade do ar interno dos ambientes são algumas das características que diferenciam esse tipo de edifício dos edifícios tradicionais.

A produção de Arquitetura Sustentável no mundo vem sendo representada e difundida pelos diversos conselhos mundiais de construção sustentável, e/ou “green building councils”. Cada vez mais essa forma e tendência de arquitetura adquire maior relevância e importância a nível global, devido, fundamentalmente, ao estado de crise e emergência ambiental que o planeta Terra experimenta atualmente.

De fato, recentemente o Planeta chegou num limite onde a exploração dos recursos naturais foi ultrapassada, e existe um desequilíbrio ecológico cada vez mais evidente, tanto pela frequência e maior magnitude dos eventos climáticos extremos, como pelas alterações na ordem natural das espécies, flora e fauna. Resultado desse processo global, é o que aconteceu nesse ano de 2020 com uma pandemia mundial, sendo anunciada pelos especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde) como fruto deste desequilíbrio natural.

Neste contexto tão complexo e desafiador para a humanidade, é que surge com mais força um chamado para arquitetos e urbanistas e a responsabilidade crucial para recompor as relações entre ambiente natural e construído. Além da redução no consumo de energia, e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa, a geração atual de profissionais da construção está sendo demandada para que os projetos sejam “sustentáveis” e ao mesmo tempo possuam uma alta qualidade ambiental e de conforto para seus ocupantes.

Um dos temas mais relevantes desde ano, foi a qualidade interna no ar, considerando ventilação natural, purificação dos poluentes, maiores e melhores taxas de renovação de ar para os edifícios comerciais, e claro para os de saúde. Esses temas, já vem sendo amplamente trabalhados e exigidos nas certificações ambientais para edificações, e, nós, os profissionais do movimento de arquitetura sustentável, já temos experiência nestas novas demandas (que não são tão novas).

O papel da Industria e os Projetistas

Desde minha perspectiva, o papel que temos como especialistas em “green buildings” é cada vez mais necessário para a sociedade e é maior nossa responsabilidade como depositários das “melhores práticas”, tanto em eficiência energética como em sustentabilidade em geral. Surge como uma verdadeira obrigação profissional e humana, a divulgação do conhecimento e experiências desta área para as novas gerações e para os colegas do meio, devendo ser replicadas as soluções técnicas e espaciais que atingem altos níveis de desempenho ambiental e de saúde.

No Brasil, recentemente o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) vem destacando a importância dos espaços da Saúde e alertando sobre as mudanças vindas em decorrência da pandemia, situação especialmente crítica no contexto social e econômico do país.

É precisamente neste cenário que está nossa responsabilidade para entregar produtos (edifícios) de qualidade que estejam em concordância com a sustentabilidade: ambiental, social e econômica. Isto está inevitavelmente atrelado ao cumprimento das normativas vigentes e suas melhorias ou modificações, tal como está acontecendo com a revisão da ABNT NBR 15575, a norma de desempenho para edificações habitacionais.

Muitos dos critérios iniciais dessas normas, na medida em que vão sendo aplicadas e os profissionais dando feedback disto, têm que necessariamente passar por revisões para se adaptar a critérios mais específicos (e corretos) de avaliação. Este exemplo se faz extensivo a todo tipo de normativas e certificações ambientais, as quais vão melhorando e ficando mais exigentes com o passar do tempo, aumentando os níveis de eficiência e de desempenho em geral. Da mesma forma, devemos ampliar e procurar a excelência no ambiente construído para nos adaptar e melhorar as condições existentes nas cidades e fazê-lo com maior rapidez e eficácia para poder acompanhar as transformações da realidade mundial atual.

De alguma forma, é bem sabido dentro da indústria da construção que as inovações tecnológicas demoram em ser absorvidas pelos projetistas, com maior relutância por parte dos clientes e construtores. No caso particular da Arquitetura Sustentável, e os “green buildings” em geral, essa resistência à mudança é particularmente forte, devido ao fato de que muitas das melhores práticas de projeto ou são desconhecidas para os envolvidos no processo de projeto/obra ou, muitas vezes, representam custos a mais, não necessariamente muito maiores, mas que saem do modus operandi tradicional das práticas de projeto.

Até hoje, depois de quase 20 anos que as certificações ambientais vêm sendo utilizadas e até sendo padrão de mercado (edifícios comerciais de alto padrão), a correta aplicação de estratégias de arquitetura passiva ainda não são totalmente entendidas, nem dominadas no meio profissional.

O que esperar para os próximos anos

Provavelmente no futuro próximo, daqui há uns 10-20 anos, veremos uma mudança nas atribuições tradicionais dos arquitetos, devido, principalmente, à utilização de inteligência artificial na produção arquitetônica, junto ao design paramétrico, e processos de automatização de funções e etapas tradicionais dos projetos.

Na mesma lógica de mudanças avassaladoras dentro da formação de profissionais, cada vez mais os engenheiros e arquitetos estão sendo obrigados a virar especialistas em áreas que há 20 anos nem existiam, e que nos próximos anos vão aparecer. Muitos dos trabalhos que os arquitetos atualmente realizam nos escritórios, gradativamente, serão feitos por processos autônomos ou com pouca interferência humana, em razão de já estarmos vivendo a nova era “algorítmica”.  Uma coisa é certa, dentro deste cenário sempre em mudança, a integração entre ciências naturais e produção arquitetônica será cada vez mais necessária e obrigatória tanto na formação, como na prática profissional, e a capacitação deverá ser constante para os profissionais que queiram seguir sendo competitivos no mercado.

Nesta linha de trabalho, tal como mencionado nos artigos anteriores, o horizonte até 2050 estará marcado pela transformação dos edifícios para ser “net-zero” e de alto desempenho ambiental (high performance buildings), portanto é aí onde faz muito sentido focar os conhecimentos e novas práticas arquitetônicas.

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Arquiteto pela Universidad de Chile e Master of Design Science, Sustainable Design pela University of Sydney. Diretor da PHS Eficiência Energética. Na Austrália, trabalhou para Cox Architecture desenvolvendo projetos sustentáveis em países tropicais (Malásia, Índia, Vietnã e Cingapura) e elaborou o Manual ESD (Ecollogically Sustainable Development). No Chile, trabalhou para os maiores escritórios de arquitetura do pais, desenvolveu Bases Técnicas de Eficiência Energética para o Governo, foi professor da Universidade do Chile e colaborador da Revista CA (Colegio de Arquitectos). No Brasil, foi o primeiro instrutor certificado do software de simulação de Energia da Autodesk, e desde 2011 vem dando cursos e palestras sobre o energia e sustentabilidade para universidades como FAAP, Mackenzie, Unicid e outras instituições privadas. Foi presidente do Comitê de Energia e Atmosfera para o Referencial CASA/Condomínio do GBC Brasil e colaborador da Certificação Zero Energy. Trabalhou para empresas multinacionais implementando Programas de Eficiência Energética para edifícios existentes (Operação e Manutenção) melhorando o desempenho energético-ambiental dos sistemas prediais. Fundou em 2017 a PHS Eficiência Energética, empresa especializada em Eficiência Energética, Conforto Ambiental, Simulações computacionais e Edifícios Zero Net Energy. Atualmente é Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie com a matéria de Eficiência Energética para Edificações.