Embora o principal aspecto seja estabelecer os aspectos inerentes aos sistemas da edificação que serão controlados e monitorados através da automação, existem outros itens que normalmente não são contemplados nos demais projetos e que se tornam essenciais ao tratar destas novas tecnologias.

Quem acompanha a evolução da construção civil percebe a crescente adoção de novas tecnologias construtivas, materiais inovadores, canteiros de obras cada vez mais conectados e a busca constante por maior eficiência. Aspectos importantes e sensíveis para garantir a qualidade final da obra no momento da sua entrega.

Mas ainda percebemos um gap considerável quando questionamos a adoção de sistemas de automação e tecnologias correlatas, cada dia mais essenciais para garantir a operação e manutenção das edificações. Esta situação revela um descompasso entre a busca por produtividade e qualidade no decorrer da obra e a pouca atenção aos fatores ligados ao uso futuro do imóvel.

Buscando respostas para esta situação, uma das primeiras constatações é que um índice muito pequeno de incorporadores e construtores contratam um projeto especifico de automação ao dar inicio em um novo projeto. Num levantamento preliminar, constatamos que apenas cerca de 5% dos novos empreendimentos dispõem desta disciplina entre aquelas que fazem parte do inicio de um novo processo construtivo. Alguém pode então perguntar: mas o que contempla um projeto de automação?

Embora o principal aspecto seja estabelecer os aspectos inerentes aos sistemas da edificação que serão controlados e monitorados através da automação, existem outros itens que normalmente não são contemplados nos demais projetos e que se tornam essenciais ao tratar destas novas tecnologias. Destacamos: os sistemas de segurança eletrônica (controle de acesso, câmeras e alarmes, entre outros), sistemas de telecomunicações e de áudio e vídeo.

Ou seja, além de especificar todos os equipamentos e sistemas que serão incluídos na automação, normalmente é o projetista de automação que inclui em seu escopo os demais itens acima expostos. Ainda verificamos muitos projetos de instalações que desenham os “tradicionais” sistemas de telefonia e sinal de TV, por exemplo, mas nem sequer sinalizam como será implantada uma rede de dados interna e as opções de conectividade que serão utilizadas.

A seguir, listamos diversos pontos que observamos com frequência tanto em projetos que estão iniciando como em obras praticamente entregues e que revelam que a ausência de um projeto específico de automação pode deixar marcas negativas e às vezes até irremediáveis como herança para uma edificação, seja qual for o seu uso futuro (corporativo, residencial, comercial, assim como usos específicos):

– Não existência de uma “sala técnica” adequada para atender os sistemas que serão necessários no uso rotineiro do edifício.  Devido a esta lacuna, é comum encontrarmos a instalação de equipamentos críticos como centrais de alarmes, de CFTV e de automação em um espaço exíguo dentro da guarita ou recepção. Nada pior, pois se trata de um espaço com uso frequente de diversos tipos de usuários e de terceiros não autorizados, além de ser um dos locais mais visados por possíveis invasores mal intencionados… Lembramos também que muitos condomínios estão optando por portarias remotas e a infraestrutura para este tipo de operação normalmente não é prevista, embora pudesse ter sido considerada no projeto, evitando custos desnecessários para a sua adequada implantação.

– Adequação dos serviços de dados, voz e imagem baseada nas mudanças que estão ocorrendo na oferta destes serviços pelas concessionárias. A maior parte dos projetos atuais ainda trata esta questão como se o chamado “DG” (quadro de distribuição geral) ainda fosse o mesmo de vinte ou trinta anos atrás… E também não existe a preocupação em dotar, por exemplo, as áreas comuns do prédio com uma rede interna de dados e com acesso à internet presentes de forma permanente e de qualidade. E por quê? Inúmeros serviços, cada dia mais comuns, exigem esta qualidade de serviço onipresente: acesso seletivo a áreas restritas, controle de usuários em determinados ambientes (tais como lavanderias coletivas, espaços de co-working, áreas de fitness e lazer, entre outros) além de utilização de lockers, bilhetagem de locação e de uso de bens do condomínio e assim por diante.

– Alguns ambientes de uso comum podem necessitar de sistemas específicos como sonorização ambiente e monitores de TV / imagens (academias, salões de jogos e de festas, brinquedotecas) e este projeto normalmente não é previsto em nenhuma das disciplinas tradicionais. Isto resulta em retrabalho após a obra entregue além de um resultado normalmente inferior daquele que teria sido obtido através de um projeto bem dimensionado e com especificação correta de cabeamento e de equipamentos.

– Neste momento, muitos condomínios de uso múltiplo passam a prever também ambientes de escritórios para uso coletivo. É notório imaginar então novas necessidades de conectividade, ambientação e uso intensivo de tecnologia nestes ambientes para torna-los produtivos e confortáveis. Mas, de novo, onde estão os projetos destas disciplinas?

Até o momento, focamos principalmente as áreas comuns de um condomínio. Nossa listagem acima é apenas parcial, poderíamos seguir ainda com muitos comentários, principalmente no caso de edificações com usos específicos. Mas, gostaríamos ainda de demonstrar o que acontece nas unidades habitacionais hoje entregues para os moradores.

Verificamos em algumas campanhas publicitárias o apelo de que estaria sendo entregue um “apartamento inteligente” aos futuros moradores. Aí buscamos, inicialmente animados, quais seriam estes diferenciais e encontramos, entre outros:

– tomadas USB
– fechadura biométrica
– venezianas motorizadas
– e por aí vai…

Seriam, realmente, estes itens isoladamente oferecidos o que podemos denominar de uma “casa inteligente”. Deixamos esta avaliação e resposta como objeto de reflexão para o nosso leitor…

E, para finalizar, mas longe ainda de concluir, gostaríamos de ressaltar que nossas casas e apartamentos ainda sofrem com uma infraestrutura totalmente superada e inadequada para abrigar tudo que a conectividade atual pode oferecer. Quem ainda sobrevive sem uma Internet de qualidade dentro de sua casa? Não somente para trabalhar (nestes tempos de home office) mas para acessar as inúmeras opções de streaming de vídeos e de musica, aplicativos de segurança, assistentes de voz, telemedicina e cuidados com a saúde (sim, cada vez mais…), ensino á distancia e tantos outros. Você já se perguntou quantas situações de stress ou de frustração já vivenciou em sua casa ultimamente devido a um acesso precário à sua rede de dados interna ou à Internet? Pois saiba que a distribuição interna de cabos e a forma de receber os serviços de sua concessionária são previstos em normas técnicas, mais diretamente a NBR 16264:2016 que é normalmente ignorada nos projetos de instalações. Uma vez adotada, independente da área da casa ou apartamento, seria necessário que a moradia contasse com uma central de conectividade e com um numero mínimo de pontos cabeados para garantir a qualidade destes serviços ao longo da vida útil e dos diferentes tipos de uso que se pretenda dentro da residência.

Por isso, lembramos aqui o titulo do nosso artigo: “Onde está o projeto de automação?”


Nos próximos artigos pretendemos abordar outras vertentes de uso especificas de certos tipos de edificações onde a necessidade de um projeto de automação se torna ainda mais critica. Sugestões e comentários serão sempre muito bem vindos!