diretor de RH

Numa das empresas em que trabalhei, além do meu cargo como diretor de RH, eu era o representante da empresa pela América Latina em projetos worldwide. A princípio, foi muito legal: fiquei deslumbrado com as viagens internacionais em classe executiva, hotéis cinco estrelas, a cada dois meses ficando de uma a duas semanas na matriz.

Depois de algum tempo, isso se torna rotina e fica tudo muito chato. O primeiro projeto foi a implantação do SAP-RH, que achei que não teria futuro nenhum pela complexidade dele. Nessa época, porém, o vice-presidente e o CEO da empresa eram alemães. Nada a discutir.

Depois foi a vez de validar o programa de avaliação de desempenho baseado em competências, tema bem interessante e do qual gostei tanto que anos mais tarde me especializei nessa área, fazendo vários cursos nos Estados Unidos. 

A experiência nesses e nos demais projetos foi realmente muito gratificante, pois pude entrar em contato com representantes de vários países, várias culturas, histórias incríveis, comidas exóticas e tudo o mais. Foi uma época de grande desenvolvimento na minha carreira.

Mas não é essa a história que eu quero contar aqui. É do encontro que ocorreu, faltando duas semanas antes de um Natal, para implantar o Peoplesoft, já que o SAP alemão e a administração alemã da empresa tinham se tornado um desastre.

Eu estava deslumbrado por estar nos EUA na época de Natal, com direito a neve e tudo mais. Era minha primeira vez na neve.

Os enfeites e as luzes faziam com que a cidade parecesse um grande presépio. Eu não me cansava de sair de carro à noite para observar a paisagem.

No hotel, além dos enfeites de Natal característicos, havia uma casa construída de cookies(biscoitos) no hall. O cheiro de doce era inebriante. Eu não via a hora de dar uma abocanhada naquela casa de biscoitos e confeitos. Sonho de criança.

No nosso grupo de RH World Wide também havia diversas atividades ligadas ao Natal, como amigo secreto. Entre os participantes americanos do evento, os homens usavam gravatas com temas natalinos, as mulheres caprichavam em meias natalinas, cachecóis com árvores de Natal, casacos de lã com renas e até brincos de Papai Noel. Foi aí que adquiri minha coleção de gravatas natalinas, uma das quais toca “Jingle Bells”. Pena que nunca mais usei gravatas.

Tudo era mágico. Parecia até que eu estava vivendo um conto de Natal. 

No último dia dos nossos trabalhos, fizemos a entrega dos presentes do amigo secreto e foi servido um almoço especial com peru, Christmas cake (bolo de frutas típico dessa época do ano) e eggnogg (tipo de gemada). Depois do almoço, voltamos à nossa sala de treinamento para as considerações finais sobre a implantação do projeto e as despedidas de Natal.

Uma das coordenadoras do projeto sugeriu então uma última atividade de diversidade cultural. Mandou o grupo organizar um trenzinho por ordem de altura das pessoas e fazer o caminho circulando pela sala e cantando a música “Jingle Bells” na língua natal do participante. Um de cada vez.

Puxa, que lindo! Realmente a magia estava no ar. A coordenadora foi a responsável por dar a partida na locomotiva cantando “Jingle Bells” em inglês. Depois, o próximo na linha passava a cantar em seu idioma de origem, exceto os que falavam inglês, pois a música já havia sido cantada pela coordenadora nessa língua.

O próximo foi um holandês. Não consegui repetir uma palavra do “Jingle Bells” dele e acompanhava apenas murmurando “Hum, hum, hum, lá, lá, lá”. Para variar, eu era um dos últimos no trem, pela estatura um tanto avantajada, mesmo para os padrões norte-americanos.

Eu estava em êxtase a essa altura, vivendo o sonho americano do Natal. Chegou a vez do francês; eu me lembrei das aulas de francês, da maravilhosa professora fazendo biquinho, e fui cantando em franco-português: “Vive le vent”.

A fila foi andando e eu me divertindo como se tivesse 12 anos. Veio a vez do alemão e não foi muito diferente do holandês. Foi aí que pensei: mais três ou quatro vagões e sou eu que tenho de cantar em português.

Fácil, não? Pode ser para você, que está sentado na sala da sua casa, num sofá fofo, com seu celular e computadores última geração com Google. Mas para mim, que estava a sete mil quilômetros de casa, sem a existência do Google e nada para me ajudar, só consegui lembrar, como você e o resto dos leitores, o “tradicional” “Jingle Bells”:

“Jingle bells, jingle bells / Acabou o papel / Não faz mal, não faz mal / Limpa com jornal / O jornal tá caro, caro pra chuchu / Como vou fazer para limpar meu… / Jingle bells, jingle bells…”

Não seja falso! Foi essa a letra que lhe veio à mente, não foi? Se você não cantou em coral, não foi coroinha, não estudou em escola de padres ou freiras, é a única versão conhecida.

A essa altura, eu já estava suando.

Aí foi o japonês, pularam alguns americanos, e estava chegando minha vez. Antes de mim, havia um irlandês, que foi pulado, e fiquei numa dúvida maldita: se o cara de Cingapura ia ser pulado também ou iria tentar cantar em mandarim ou malaio.

Embora o meu Natal já estivesse indo para o saco, o cingapurense resolveu cantar em alguma língua. Eu já era o próximo.

Enquanto eu suava em bicas e já amaldiçoava a porcaria do trem e da coordenadora do time, todos os demais estavam felizes, tirando um monte de fotos (com máquinas fotográficas), e a festa era total.

O inevitável aconteceu: o vagão Rogério se tornou a locomotiva desgovernada. Mais loco do que motiva. Você pode imaginar a cena ridícula… Vinte e poucas pessoas, entre marmanjos e marmanjas, cantando na sala de treinamento de um hotel nos EUA: “Jingle bells, Jingle bells, acabou o papel”, etc., etc.

Moçada, é nessa hora que agradeço que a tecnologia só chegue no tempo certo. Imaginem alguém postar aquela cena pavorosa, gravada em celular, no YouTube, ou Facebook, ou seja o que for, que graças a Deus não tinham sido inventados na época! A tecnologia tem me ajudado muito com relação ao timing: ela sempre vem depois das minhas paspalhices.

Não via a hora de aquilo acabar e perguntar depois para algum brasileiro que estava comigo no hotel a droga da letra certa da música. No jantar com os brasileiros, fui alvo de chacotas, gozações e maldições pelo vexame. Só que nenhum do grupo sabia a letra original, até que meu amigo, diretor de logística e de origem alemã, começou a cantar em alemão e a traduzir a música. Só assim lembramos a letra certa:

Hoje a noite é bela, Juntos eu e ela, Vamos à capela, Felizes a rezar.

Ao soar o sino, Sino pequenino, Vem o Deus menino, Nos abençoar.

Bate o sino pequenino, Sino de Belém, Já nasceu o Deus menino,

Para o nosso bem! É Natal, é Natal Sininhos de luz!Replicai, badalai

Que nasceu Jesus Paz na Terra pede O sino alegre a cantar! Abençoe, Deus menino,

Sempre o nosso lar!  

Antes de me julgar, não seja falso. Você só sabe a minha versão. Guarde a letra acima, pois a tecnologia já chegou…