A construção civil começa a olhar além da taxa de juros para se recuperar e, no futuro, crescer de forma sustentável. Seja pelos reflexos da crise, pelo novo tipo de consumo ou pela sua relação com os espaços urbanos, o setor, forçosamente, seguirá rumos que levaram a indústria em outras economias às bases que a sustentam hoje.

Por Lucas Obino, ISTOÉ Dinheiro. Uma tímida recuperação econômica possibilitou ao setor da construção civil crescer por pouco mais de um ano. Antes que demanda reprimida e política monetária esgotassem seus efeitos e que a observação de tendências se fizesse necessária para a continuidade da expansão, chegou a Covid-19.

Apesar do impacto da pandemia, a Selic mais baixa da história possibilita que segmentos mantenham-se ativos, caso de lançamentos voltados à classe média. Famílias que mantiveram suas rendas podem hoje gastar menos com prestações que com aluguel. No alto padrão, mais que qualquer outra característica, é o tamanho das unidades que determina suas vendas. Diante da generalização do home office, maior é melhor. Além do trabalho, um número crescente de atividades será feito remotamente – o que tornará banal o hábito de se morar por períodos variados em diferentes imóveis, cidades e países.

Há tempos o consumo volta-se ao uso e não mais à posse. Pelas suas características, o setor leva mais tempo para assimilar essas tendências que, a partir da pandemia, serão determinantes já nos próximos anos, um futuro imediato para uma indústria que leva, geralmente, 36 meses para concluir suas obras.

Estranho para os mais jovens, o “sonho da casa própria” deixará de ser a força motriz da construção civil, papel que mantém no País por conta da inflação elevada que marcou um período não vivenciado por boa parte dos consumidores atuais. A sensação de segurança que a propriedade proporciona é corroída pela baixa liquidez e perde sentido em uma economia estável. Mundialmente, startups já se notabilizaram pela oferta da moradia como serviço. Com gestão e locação, os fundos imobiliários são os que mais exploram esse mercado.

Dada a falta de perspectiva de que o segmento comercial vá se recuperar, os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) brasileiros mudarão rapidamente o perfil de suas carteiras. Edifícios que não voltarão a abrigar escritórios já fazem grupos da construção civil criarem áreas voltadas à adequação de imóveis para uso residencial por meio de retrofit.

Particularmente nos Estados Unidos, o crowdfunding imobiliário é um dos motores do segmento. Financia compra e adequação de imóveis para repassá-los a fundos. No Brasil, o modelo cresce por oferecer capital mais barato que as fontes usadas por empresas para etapas não contempladas pelo crédito de bancos ao setor e pela rentabilidade proporcionada a investidores. Mais familiarizadas com o financiamento ao retrofit – até pelo modelo que importaram – as fintechs do crowdfunding poderão, particularmente em sua fase de expansão, ser uma de suas principais fontes de recursos.

A construção civil começa a olhar além da taxa de juros para se recuperar e, no futuro, crescer de forma sustentável. Seja pelos reflexos da crise, pelo novo tipo de consumo ou pela sua relação com os espaços urbanos, o setor, forçosamente, seguirá rumos que levaram a indústria em outras economias às bases que a sustentam hoje.


Lucas Obino é arquiteto e sócio-fundador da Urbe.me Serviços de Desenvolvimento Urbano e do Ospa Arquitetura e Urbanismo.