O Brasil dispõe de inteligência de engenharia suficiente, além de profissionais competentes não somente para colaborar, mas para serem agentes de mudança, em direção à Construção 4.0.

Num mundo em constante mudança, com um crescimento habitacional urbano acima de 200 mil habitantes por dia, com impacto no aumento considerável do déficit de habitações e de infraestrutura, sobretudo para educação, saúde e transportes, a construção tradicional não tem conseguido dar respostas aos ganhos de produtividade necessários para resolver este problema. Atrasos em cronogramas de obras e aumentos do custo contratado, problemas de qualidade, elevado desperdício e altos custos de manutenção, são lamentavelmente comuns e caracterizam o setor de construção, pejorativamente, como “um grande artesanato construtivo”.

Neste cenário caótico, globalmente, a Construção Modular dobrou de tamanho nos últimos 5 anos e deverá crescer à uma taxa da ordem de duas vezes a da construção tradicional. Além disso, a Construção Modular tem realizado entregas de produtos e empreendimentos em prazo recorde, garantindo previsibilidade, menor desperdício, maior sustentabilidade, além de melhor qualidade e desempenho. As vantagens da construção off-site têm sido bem exploradas pela Construção Modular, concentrando o máximo possível das atividades em um ambiente industrial controlado, com processos padronizados. Assim, as tarefas realizadas no canteiro de obras (on-site) são fortemente minimizadas, que é exatamente onde os maiores desvios, desperdícios e prejuízos ocorrem.

No Brasil, temos barreiras importantes ao avanço da industrialização da construção e da Construção Modular:

Investimento e linhas de crédito para a inovação e estruturação de startups

O MITHUB divulgou, em dezembro de 2020, um relatório da Terracotta Ventures sobre a Construção Modular, destacando que 77 startups de construção modular receberam investimentos superiores a US$ 2,2 bi, desde 2010. Não foi por acaso que gigantes da tecnologia como Facebook, Google, Amazon e Autodesk, apoiados pelo Citibank e pelo Morgan Stanley figuram neste bloco de investidores, aportando US$ 55 milhões em uma operação plena de Construção Modular, a Factory OS, fundada em 2017.

No Brasil, destaca-se a visão e o arrojo da Gerdau, que tomou uma iniciativa idêntica no mercado brasileiro, investindo R$ 60 milhões na Brasil ao Cubo, empresa estruturada e que já opera há alguns anos, consciente da necessidade de avançarmos rapidamente para a industrialização e fortalecimento da construção off-site, conduzindo o setor de construção para a Indústria 4.0.

Lamentavelmente, esta não tem sido a prática do mercado brasileiro. Aqui os investidores buscam um ticket de investimento menor e a multiplicação de startups já em operação, fortemente relacionadas a aplicativos mobile e a sistemas computacionais, ou seja, com perfil “mais software” e vinculado a empresas de tecnologia da informação. Embora ofereçam baixo risco, estes investimentos são de impacto limitado, por terem como consequência acelerar somente uma determinada área ou processo de uma operação de construção tradicional.

São investimentos importantes, mas que representam uma contribuição modesta ao setor e aquém da necessidade do país. O mercado financeiro, as incorporadoras, as construtoras e os investidores precisam abrir os seus olhos e mentes para as startups plenas de Construção Modular, que têm conteúdo e capacidade motriz para colocar rapidamente o Brasil no bloco de países líderes na exportação de tecnologia e de produtos da Construção Modular, além de contribuir significativamente para resolver problemas sérios, como o déficit habitacional brasileiro, com tendência a quadruplicar até 2030 e cuja solução não está na esfera da construção tradicional.

As startups plenas de Construção Modular não precisam de recursos elevadíssimos para operar. Paradoxalmente, isso afasta o interesse dos fundos de investimento mais estruturados, que operam com ticket de investimento superiores a R$ 100 milhões por estas startups. Alguns organismos e instituições brasileiras fomentam bons programas de pesquisa, mas restritos à academia, envolvendo projetos de mestrado e doutorado. Isso é muito bem-vindo, mas não resolve a maior barreira ao empreendedorismo e à inovação: a falta de linhas de crédito e de programas de incentivo à pesquisa aplicada, sobretudo para as construtechs plenas de Construção Modular, com perfil “mais hardware e menos software”.

Se não for proveniente de um núcleo familiar que possui riqueza e capital disponível para investir, o empreendedor brasileiro tem que fazer a mágica de se estabelecer com recursos escassos, apostando em soluções indiretas, como o project finance ou ainda, contando com um voto de confiança de clientes estruturados, dispostos ao risco de contratar uma startup para entregar seus primeiros lotes de produtos.

Barreira tributária

Se o empreendedor brasileiro conseguir superar a etapa de estruturação financeira, terá que brigar de forma desigual e injusta contra uma política tributária que, ironicamente, pune a construção industrializada, que recolhe aos cofres públicos aproximadamente 20% a mais que a construção tradicional. Detalhando melhor, a construção industrializada e a Construção Modular recolhem 10% de IPI, além de uma alíquota de 12% ou 18% de ICMS, dependendo do estado.  Enquanto isso, a construção tradicional recolhe 5% de ISS. Trata-se de uma penalidade expressiva e de altíssimo impacto para quem entrega qualidade, desempenho e produtos mais sustentáveis, em tempo e custo muito menores do que os da construção tradicional.

Há décadas falamos sobre o “Custo Brasil”, com um Estado extremamente oneroso para uma pequena população economicamente ativa e cada vez mais pobre para alimentar uma dinâmica deficitária que somente piorará se uma atitude contundente não for rapidamente tomada. A reforma tributária é mais do que necessária, mas a reforma política também precisa avançar diminuindo significativamente o peso do Estado e um contingente político responsável por gastos enormes, desnecessários e não compatíveis com a geração de riqueza dos brasileiros.

A isonomia tributária em relação à construção tradicional é essencial e urgente, não somente para equalizar o disparate apontado anteriormente, como também para permitir que a Construção Modular gere para o país ganhos importantes de qualidade e produtividade, entregando muito mais metros quadrados construídos por menos reais.

Conclusões

Um país pobre que tem fartos recursos naturais e humanos com condição de aspirar a posição de uma das maiores potências globais não pode fechar os olhos a estas questões, se quiser almejar esta posição.

O Brasil dispõe de inteligência de engenharia suficiente, além de profissionais competentes não somente para colaborar, mas para serem agentes de mudança, em direção à Construção 4.0.

Investir em iniciativas brasileiras e em startups plenas é um caminho ousado, mas seguro, atrativo e com alto potencial para a geração de resultados econômico-financeiros notáveis. Faz-se necessário desenvolver linhas de crédito para pesquisa aplicada em startups, bem como para a viabilização da estruturação financeira de projetos vinculados à tecnologia e inovação e com planejamento estratégico com conteúdo e qualidade para crescer e gerar resultados notáveis, de forma rápida e estruturada.

Da mesma forma, avançar com as reformas estruturais necessárias e aprovar, urgentemente, a isonomia tributária são questões absolutamente que não podem mais ser postergadas, para colocarmos o país nos trilhos, dando chance real aos empresários e empreendedores brasileiros. O propósito é simples, mas de alta relevância e impacto: transformar a construção brasileira numa indústria moderna e numa fábrica de edificações, com elevada produtividade, exportando tecnologia e produtos brasileiros inovadores e de qualidade para o mundo.