O uso de sistemas construtivos sustentáveis é uma grande tendência atual podendo inclusive ser exigido em legislações. O conceito antigo de afastar rapidamente da fonte as águas pluviais se mostra impraticável no cenário atual de urbanização onde são privilegiados sistemas que permitem o amortecimento das cheias e a infiltração. Nesse novo contexto, os pavimentos permeáveis são inseridos como vetores importantes de drenagem urbana podendo ser considerados uma solução para demandas de áreas permeáveis.

Como parte integrante de um projeto de pavimento intertravado permeável entende-se a elaboração de um memorial descritivo que apresente a seção tipo do pavimento e os materiais utilizados em cada camada, além de trazer diretrizes para a execução e plano de manutenção ordinária e extraordinária. Para definir a seção tipo com as espessuras de cada camada é necessário realizar o dimensionamento mecânico e hidráulico do pavimento, considerando o uso da base como reservatório de retenção e/ou detenção. Por fim, o projeto deve trazer as pranchas com a representação em planta e eventuais cortes e detalhamentos necessários para execução do projeto.

A ABNT NBR 16416, norma brasileira de pavimentos permeáveis de concreto, estabelece alguns requisitos gerais de projeto. Estes requisitos têm principalmente a função de fornecer diretrizes de boas práticas para o projetista.

• Os locais revestidos com pavimentos permeáveis devem permitir a percolação de 100 % de água precipitada incidente sobre esta área, bem como 100 % da precipitação incidente sobre as áreas de contribuição consideradas no projeto, desde que cumpridas as especificações desta Norma.

• As áreas pavimentadas permeáveis devem ter toda sua superfície (área permeável mais área de contribuição) considerada como 100 % permeável.

• Medição do nível do lençol freático, sendo necessário que a parte inferior da base do pavimento deve estar no mínimo a 0,6 m de distância do nível mais alto do lençol;

• As áreas de contribuição não podem exceder em até cinco vezes as áreas permeáveis do pavimento;

• Declividade mínima do pavimento permeável de 0,5 % e máxima de 5 %. Para as áreas de contribuição a declividade deve ser de máximo 20 %;

A norma apresenta também requisitos específicos de materiais de cada camada, e essas informações podem servir de guia para elaborar o manual descritivo.

Os materiais da superfície têm também requisitos especificados pela normativa, que depois são verificados com o fabricante/fornecedor.

Segue então ao dimensionamento da espessura das camadas de base e sub-base, que tem a função de receber e distribuir as cargas oriundas do tráfego ao subleito do pavimento e de funcionar como reservatório de detenção para a chuva de projeto.

Para o dimensionamento mecânico podem ser utilizados métodos usuais para dimensionamento de pavimentos. Porém é importante notar que a base do pavimento permeável é diferente de uma convencional – o material usado apresenta índice de vazios alto (30% – 40%) justamente para permitir a função de reservar de água, mas este fato pode diminuir o suporte de carga da base. Além disso, é esperado que a base funcione parte do tempo completamente saturada. Dessa forma o dimensionamento mecânico deve levar em conta esses fatos. O ICPI (Interlocking Concrete Pavement Institute) fornece valores de referência para o dimensionamento mecânico de um pavimento permeável utilizando o método AASHTO. Eles recomendam uma espessura mínima de 150 mm de espessura para situações de tráfego exclusivamente de pedestres e 250 mm para entradas de veículos e tráfego leve.

Para o dimensionamento hidráulico a ABNT NBR 16416 fornece um método simplificado não-normativo e uma tabela de referência para definir o tipo de infiltração, ou seja, se é possível infiltrar toda a água no subleito, complementar o sistema com tubulação de drenagem ou mesmo impermeabilizar o subleito e direcionar toda a água através da drenagem com tubos. Outro método que pode ser utilizado é o método da curva envelope, um método utilizado para dimensionar reservatórios de detenção. Este método considera que o volume do reservatório é dado pela diferença do volume de entrada (chuva de projeto, área de contribuição) e de saída (infiltração, tubos de drenagem). O método permite identificar o tempo crítico de projeto, ou seja, o tempo de duração da chuva de projeto que leve ao maior volume de reservatório. Obtido o volume do reservatório a espessura é calculada dividindo o volume pela área do pavimento considerando o índice de vazios do material utilizado na base. É importante determinar ainda o tempo de esvaziamento de reservatório, ou seja, o tempo que leva para esvaziar completamente o volume, que deve ser no máximo de 72 horas, sendo ideal não ultrapassar 24 horas.

Adota-se então a maior espessura entre a obtida com o dimensionamento mecânico e hidráulico.  O projeto é então finalizado especificando os tubos de drenagem, manta geotêxtil e/ou manta impermeabilizante, conforme cada caso, considerando todas as declividades e características dos materiais.

Quem tiver mais interesse nesse assunto pode participar no curso gratuito que vou lecionar nos dias 08 e 20 de agosto em São Paulo com realização da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), Bloco Brasil e SINAPROCIM (Sindicato Nacional dos Produtos de Cimento). Para mais informações do curso é possível acessar esse link:

Referências:

ABNT, NBR 16416: Pavimentos permeáveis de concreto: requisitos e procedimentos. 2015.

SILVEIRA, ALL da, and Joel Avruch Goldenfum. “Metodologia generalizada para pré-dimensionamento de dispositivos de controle pluvial na fonte. ” Revista Brasileira de Recursos Hídricos 12.2 (2007): 157- 168.

Smith, David R. “Permeable interlocking concrete pavements. ” Select ion, Design, Construction, and Maintenance (Herndon, VA: Interlocking Concrete Pavement Institute) (2006).