"Me sinto mais forte e com certeza mais produtivo, capaz de sair desta crise valorizando as coisas mais importantes, família, amigos, trabalho, e ter ajudado a empresa a construir soluções para a sociedade."

Paulo Mancio, vice-presidente de design e construção da AccorHotels, conta como a implementação de um comitê de crise incentivou a empresa a tomar decisões mais ágeis para proteger a saúde dos colaboradores e clientes durante o surto do novo coronavírus.

Qual é sua área de atuação na construção civil?

Sou responsável pela América do Sul, no setor de patrimônio da ACCOR, a maior operadora hoteleira do mundo, com 39 marcas de hotéis.

Como foram as primeiras reações da sua empresa diante do surto de Covid-19?

Temos uma grande presença na Ásia, então desde o princípio sentimos a importância e gravidade do Covid-19, pois na região houve o fechamento de hotéis, principalmente pela falta de clientes, pois não é seguro manter os hotéis abertos com pouco movimento. Além disso, o governo da China exigiu o fechamento do comércio de várias regiões, então alguns hotéis também foram fechados por esse motivo. Isso aconteceu logo na primeira semana de janeiro.

Quais foram as primeiras medidas de contenção?

Tomamos uma medida rápida estabelecendo o comitê de crise. Há setores da empresa já treinados para as mais variadas crises. Ele foi implantado primeiro na Ásia, depois na Europa e agora na América Latina. Pretendeu-se tratar dos mais diversos assuntos, como o que fazer com os hotéis fechados (no que tange às instalações), a parte de comunicação, trabalhando na comunicação interna e externa da empresa nesse momento de crise, etc. Além do fechamento dos hotéis pela quarentena e falta de clientes, temos que cuidar com muito cuidado dos nossos colaboradores. Estabelecemos o home office e hoje há pouquíssimos hotéis abertos. Desde o dia 17 de março estamos em home office.

Estão conseguindo manter as atividades essenciais?

Somos uma empresa que sobretudo se preocupa com o ser humano, sejam hospedes ou colaboradores. Este tema é central quando a crise é de grande impacto no setor da saúde. Tínhamos uma situação estável economicamente há 6 anos, então espero que trabalhemos para atravessar esta crise das melhores formas possíveis.

Como a crise provocada pela pandemia pode afetar sua empresa no futuro?

Não tenho dúvidas de que o mundo não será mais o mesmo. As pessoas reavaliam valores, comportamentos e aspirações em situações extremas. Hábitos comuns de higiene serão transformados, talvez restaurantes self service sejam repensados, ou também muitas pessoas tenham medo de pegar voos e ficar tanto tempo em ambientes fechados com muitas pessoas. Acho que estamos passando por impactos econômicos importantes, e saindo da crise teremos eles reverberando dali pra frente. Outro fato interessante da macroeconomia mundial é o “engasgalhar”, ou seja, muita gente vai mudar seus hábitos de consumo, talvez gastando mais com lazer etc. Teremos uma sequência após crise muito interessante e diferente do que havia antes, com certeza.

O quanto sua vida foi afetada nesse período de quarentena?

Passei a primeira semana muito perdido na transferência para o home office, mas logo organizei meu escritório e as relações em casa. Me sinto mais forte e com certeza mais produtivo, capaz de sair desta crise valorizando as coisas mais importantes, família, amigos, trabalho, e ter ajudado a empresa a construir soluções para a sociedade. Nossos hotéis estão recebendo idosos, mulheres em situações domesticas complicadas, estabelecendo a tarifa solidaria. Então, tenho muito orgulho de ter passado e colaborado, superando esta crise e, quero pensar que daqui a dois meses estaremos de fato materializando esta última frase.

O LIGA Blog está publicando entrevistas com diretores de grandes empresas brasileiras da construção para entender como estão as empresas do setor estão lidando com os desafios proporcionado pela pandemia do covid-19.